terça-feira, 3 de abril de 2012

Silêncio

























Não há palavras. Não há palavras. Simplesmente não há nada a ser dito.

Em algumas ocasiões durante a vida, somente o silêncio deveria existir. Não que ele não exista (pois existe), mas defendo que em determinadas situações uma palavra não deveria ser dita. Jamais.
Seria uma espécie de trava. Deveríamos todos ter um sistema que antecipasse as consequências de nossas palavras. E em alguns casos, a melhor opção seria simplesmente não dizer nada. Os rumos seriam completamente outros, desentendimentos não ocorreriam, guerras poderiam ser evitadas, vidas poderiam ser poupadas só pelo simples fato de não dizermos nada! Mas não existe tal sistema. E insistimos em dizer mais do que podemos, mais do que deveríamos.

Quem nunca disse uma frase no calor de uma discussão e depois de arrependeu? Quem nunca fez um comentário infeliz sobre seu passado para a pessoa amada e causou uma briga infantil? Quem nunca disse “aceito” quando na hora deveria dizer “recuso”? Quem nunca disse que ia e não foi? Quem nunca disse sim querendo dizer não? A vida é cheia desses enganos e nessas horas só o silêncio deveria ser a resposta.
Poucas pessoas dominam essa técnica de não dizer nada na hora certa. Jesus por exemplo, foi um desses caras. Quando Pilatos lhe perguntou “então, o que é a verdade?”, não houve resposta. Na verdade, não havia verdade e qualquer coisa que ele disse ali seria banal, retórico. Porém seu silêncio foi determinante pra que o próprio Pilatos não lhe achasse um criminoso. É bem verdade que Jesus acabou crucificado, mas o tal silêncio falou muito mais do que qualquer palavra dita.

Citei Jesus, mas poderia ter citado muitos outros. Por exemplo os que morreram nos porões na Ditadura sem entregar os companheiros de luta pela liberdade do Brasil. Também poderia citar os russos, que silenciosamente usavam laços ou roupas brancas em frente ao Kremlin no último dia 01/04 protestando contra o governo. São tipos de silêncio que mais se parecem gritos diante do que representam. Mas estão presentes. Fortes. Ruidosos. Silenciosos.

O silêncio também pode representar uma ausência. A ausência de informações, de notícias sobre a vida de alguém. Hoje, neste mundo dominado por redes sociais, aparecer na Internet é quase que uma obrigação. Dizer onde esta, com quem e fazendo o quê tornou-se uma necessidade e são poucos os que se negam a isso. Permanecem em silêncio e somem no meio da multidão. Não saber sobre a vida de alguém hoje em dia dói. Saber então dói mais ainda.

É bem verdade que um silêncio tem se abatido sobre nós. Um silêncio furtivo, discreto, mas vivo e presente. E é muito ruim quando isso acontece. O silêncio hoje nos torna cegos.  É uma inversão completa de sentidos (visão versus audição), mas é mais pura verdade. E tal silêncio acaba nos afastando, levando as vidas em sentidos contrários, muitas vezes distantes de onde realmente gostaríamos de estar.

Há de se quebrar o silêncio. Imediatamente. Só assim poderemos saber de onde está sendo emitida a verdade. Só assim podemos enxergar o que o silêncio não nos diz.