sábado, 26 de novembro de 2011

Papai Noel existe


A história é a seguinte: 

Não é novidade pra ninguém que eu me visto de Papai Noel todo Natal na minha família. Há 14 anos faço isso.  Tenho até fotos nas redes sociais com a fantasia. Todo ano é a mesma coisa, a expectativa de todos, aquela cobrança boa de “o Arnaldinho vai ser o Noel esse ano? Que legal!”, etc, etc, etc. Nos reunimos na casa de algum parente, levo a fantasia e a uma determinada hora me retiro de fininho, longe do alcance das crianças para “incorporar” o bom velhinho. Dá uma trabalheira danada vestir tudo, passar maquiagem, ajeitar barba, peruca, colocar barriga, aguentar um calor enorme sob a roupa quente, carregar o saco gigante com os presentes e ainda tocar o sininho. Ah, o sininho! Não há criança que não entre em transe ao ouvir o bendito sininho! Elas correm desesperadas pela casa à procura do som. É o sinal que o Papai Noel está ali, a poucos metros de distância deles trazendo seus presentes. E na hora que eles me vem a emoção transborda. Eles pulam, gritam, riem, abraçam seus pais agradecendo a presença do Papai Noel bem ali, diante deles. Se o Noel está chegando, é sinal de que eles irão ganhar presentes, os tão sonhados e desejados presentes que eles pediram o ano todo, fruto de meses de bom comportamento, de comerem todos os legumes, tomarem banho e fazerem as tarefas da escola.

Mesmo com toda a fantasia, com todo o peso, com todo o calor e trabalhão que há para me transformar num velhinho de barba de plástico branca, roupa de frio vermelha (nesse calor senegalês que vivemos) e botinas pretas, no momento em que vejo as expressões de felicidade das crianças, esqueço de tudo. Sou, naqueles breves momentos, o Papai Noel sim. Existo na ilusão das crianças como resultado de um ano inteiro de expectativa e espera. Para os pais também represento algo positivo, pois muitos usam a vinda do Noel como moeda de troca com os filhos: “Se você parar de chupar chupeta o Papai Noel virá no Natal te trazer o presente que você pediu”. E funciona. Fico quase sem a ceia, perco parte da festa, mas no final o resultado é recompensador. Nada paga o olhar de uma criança diante do Papai Noel em pessoa lhe entregando um presente, por mais simples que for.

Pois bem. Faço esse depoimento para introduzir somente agora o que eu realmente quero contar, para provar que o Papai Noel existe sim, tudo é uma questão de acreditar.

Há alguns dias, fui convidado para me fantasiar de Papai Noel e entregar presentes em uma escolinha de ensino fundamental, na Região Norte de Rio Preto. Tenho uma prima que é professora e leciona lá para alunos de 5 e 6 anos. Atendendo ao seu pedido me preparei a semana toda. Pedi para minha mãe, D. Marize me ajudar com a fantasia. Tirar pra lavar, passar, pentear a barba e a peruca, arrumar os elásticos que prendem tudo em meu rosto, etc. No dia combinado, vesti a fantasia, encarnei o personagem, ensaiei no “Ho-Ho-Ho” e fui. Dirigindo sozinho pelas ruas de Rio Preto vestido de Papai Noel.

Chegando a escola as crianças já estavam reunidas no pátio. Não me viram entrar. Fiquei esperando numa sala, enquanto não dava a hora de eu aparecer e fechar a festa. Eis que num determinado momento, ouço gritos e choro de um menino do lado de fora da sala onde estou. Ao me levantar me deparei com uma criança, um menino, de pouco mais de 6 anos aos berros agarrado à grade do lado de fora dizendo que queria ver quem era, que ia entrar pra ver quem eu era.

Não entendi bem ao certo o que estava acontecendo, mas permaneci imóvel, aguardando alguém vir tirar o menino que estava pendurado na grade, aos prantos e gritos de desespero.
Minha primeira reação foi a de imaginar que ele estaria com medo do Papai Noel. Isso é normal e comum até em várias crianças. O garoto desceu da grade e o perdi de vista. Porém, segundos depois, de uma forma que até agora não entendi, o menino irrompeu a sala onde eu estava aos gritos, avançando pra cima de mim na tentativa de tirar minha fantasia, principalmente minha barba e cabelo postiços. Levantei na hora com o susto e com a possibilidade de ele estragar tudo, se agarrar a barba e me desmontar por completo. Sozinho na sala, com a criança completamente transtornada, lutei com literalmente para mantê-lo longe de mim tentando argumentar, falar com ele. Em vão.

A criança parecia estar dominada por um espírito demoníaco. Totalmente fora de controle. Gritava, urrava, avançava pra cima de mim com um ódio irascível de alguém que ou tem medo ou quer muito destruir algo. Dizia pra eu arrancar tudo, tirar a barba, que ele estava vendo que era mentira, que via a costura (!!!) da minha barba, que era pra eu tirar a touca vermelha da minha cabeça. Afastando da criança, me vi acuado, num canto de parede com aquele menino totalmente fora de controle que gritava em minha direção chorando, tentando me arrancar a barba e se jogando no chão. Confesso que foram longos minutos até eu me controlar também e tentar pensar em algo rápido, ou pra sair dali ou pra contornar a situação.
Até que finalmente apareceu um rapaz e segurou o menino. Porém, nem ele dava conta. Ao ser afastado de mim aí que o garoto gritou mais, se jogou mais, lutou mais. O rapaz era funcionário da escola (secretário acho) e tentou controlar o menino que se debatia aos berros. Entre um grito histérico e outro, disse que o menino era “hiperativo” e que a mãe não cuidava. A verdade é bem outra. Descobri depois que o menino tem graves problemas na família – se é que existe uma família – uma irmã paralítica, um irmão mais velho envolvido com tráfico e a mãe provavelmente usuária de drogas. Perguntei o nome da criança, ele me disse e à partir dali comecei a chamar o menino diretamente pelo nome. Nesse momento, a situação começou a se inverter.

Entre um grito e outro, durante as tentativas de acalmar a criança, o funcionário perguntava algumas coisas para ele que respondia automaticamente. Minha experiência como jornalista serviu pra alguma coisa aí. Entre um grito e outro, ele disse nomes e lugares desconexos e eu fui só ouvindo, reunindo informações. Até que num determinado momento liguei os pontos e perguntei sobre se a bicicleta do seu irmão era branca ou marrom – tentando mostrar à ele que, por ser mesmo Papai Noel, eu sabia de tudo, inclusive que irmão tinha uma bicicleta. Só não me lembrava se branca ou marrom.

O garoto parou na hora de gritar. Me olhou com desconfiança. Esperou alguns segundos e disse que era marrom.

Eu estava no caminho certo.

Fui perguntando outras coisas, se ele já tinha pedido o seu presente de final de ano, se já tinha andado de carro, se gostava de chicletes, se tinha a mochila do Ben 10, coisas de criança que fazem parte do universo deles. Para algumas perguntas obtive respostas, para outras não. Mas o importante é que ele foi se acalmando, parando de chorar e de gritar. E principalmente parando de tentar tirar minha barba. Dei uma folha de papel e um lápis a ele e pedi para que me desenhasse um carro onde gostaria de andar. Na hora começou a fazer seus rabiscos, botando rodas onde não tinha, desenhando as pessoas dentro do carro. Fui perguntando onde ficariam as portas, onde ele colocaria o estepe, onde ficava o motor, etc. O menino foi se distraindo, foi desenhando até que parou por completo de chorar.

A cartada final foi quando perguntei quantos amiguinhos dele já tinham estado tanto tempo assim, de perto, conversando com o Papai Noel. Ele ficou em silêncio. Só me olhou e continuou a desenhar seu carro imaginário.

Foram 40 minutos ou mais. Uma eternidade. Eu, vestido de Papai Noel, numa sala com uma criança em surto, gritando que era mentira, que eu não era Papai Noel de verdade. Uma cena surreal, garanto.

Instantes depois me chamaram para o grande momento. O menino ficou na sala enquanto fui para o pátio, aparecer para as outras crianças. A recepção foi extremamente diferente! Milhares de sorrisos, acenos, gritinhos de “êêêêêêêêêê!!!” ecoavam por toda a escola. A felicidade estava de volta e eu podia interpretar o personagem que eu estava ali para interpretar. Foi um sucesso.

Entreguei presentes para alguns. Todos me olhavam com aqueles olhos esperançosos de “será que eu vou ganhar alguma coisa?”. Peguei o microfone e disse que iria de sala em sala entregando os presentes – que realmente ganharam. São crianças carentes, a maioria vivendo abaixo da linha da pobreza, que ganham todos os anos de doadores anônimos, padrinhos de natal, seus presentes pedidos em cartinhas. Uma troca de roupa, um par de sapatos, um brinquedo, uma escova de dentes. Tudo numa sacolinha de tectel. Mas o barato da coisa não era a sacolinha em si. Era o Papai Noel ali, entregando para eles. Era isso que eles mais queriam.

Terminando o evento no pátio eu deveria seguir para as salas de aula onde estavam as crianças. Foi neste momento que, do nada, surge quem? Aquele mesmo menino, que minutos antes lutava comigo na tentativa de provar que eu era uma fraude. Agarrou minha mão com força (com uma força atípica para meninos naquela idade) e me puxou para uma sala de aula. Daquele momento em diante ele foi meu “ajudante”. Olhei para ele e perguntei se ele queria me ajudar. A resposta foi sim. Disse à ele que me levasse em todas as salas de aula pois não conhecida direito os caminhos e ele me guiou, sala por sala, agarrado em mim.
Visitamos todas as salas. Em cada uma delas ele ia à frente, abria a porta e parava ao meu lado. Eu falava com as crianças, acenava, perguntava o que cada um queria, entregava os presentes e seguia em frente. E o garoto ali, como meu fiel escudeiro. Já não tentava me desmontar, nem puxar minha barba. Só ficava ao meu lado, hora segurando minha mão, hora agarrado à minha perna.

Ao final do percurso ele encontrou novamente aquele funcionário que havia tentado lhe segurar na sala onde estávamos antes. O rapaz lhe disse para voltar pra sala de aula, pois seu presente ia ser levado embora. Ele se despediu de mim com um tchau rápido e saiu correndo em direção à sua classe. Não o vi mais.
Ainda vestido de Papai Noel, cumprimentei a direção da escola, sai e fui para o meu carro estacionado na rua. Voltei pra casa me desmontando aos poucos, ainda tentando entender tudo o que eu tinha presenciado ali. Fui do inferno ao paraíso em minutos e ainda tentava digerir tudo.

Conclui que aquele menino é o reflexo de muitos meninos e meninas que hoje existem por ai. Crianças que tem sua infância ceifada por dramas familiares longe da nossa confortável realidade social burguesa. O buraco é mais embaixo, é mais complexo do que a gente pode imaginar. Aquele garoto teve todos (TODOS) os seus sonhos sobre Natal e Papai Noel destruídos em alguma parte da sua infância perdida. Sua revolta e agressividade, a forma como ele me olhava, o ódio que ele nutria por aquela figura estava estampado na sua expressão de grito e horror diante de uma figura que ele já, com tão pouca idade, sabia que não existia. Ele sabia que eu não era o Papai Noel porque sempre lhe foi dito que Papai Noel não existe. Seja por conta de um prazer sádico dos pais em torturar os filhos pequenos, seja pelo fato de que se disserem que Papai Noel não existe, não precisam comprar presentes e ai sobra mais dinheiro para drogas, cachaça e cigarro. Destruir a ilusão na cabeça de uma criança é mais fácil. Nutrir essa ilusão é que é difícil. Portanto, “Papai Noel não existe moleque. E sai daqui, me deixa em paz!”.

Mesmo diante desse cenário todo, mesmo contra a desesperança que essa criança tinha, sua falta de fé num ícone tão forte quanto o Natal, no final, ele aceitou a ideia. Mesmo que por poucos minutos. Ao me acompanhar pela escola, ao me guiar como “ajudante”, o menino pode ter acreditado que sim, Papai Noel existe. Afinal de contas, ele estava ali do lado dele, entregando presentes para as outras crianças. Ai poderão vir os psicólogos me criticar dizendo que eu criei uma ilusão na cabeça da criança e que isso é prejudicial. Dane-se! Pra mim, naqueles rápidos minutos, eu fui Papai Noel de verdade para ele e só isso já me basta. Tenho a mais absoluta certeza de que, daqui pra sempre, ele irá se lembrar disso. Serei eterno na memória daquele menino, uma memória boa diante de tantos horrores que ele deve ver e passar todos os dias.

Quando digo que Papai Noel existe, digo com conhecimento de causa. Ele é real e palpável para cada criança que acreditar nele. Ele vive na mente, em cada cabecinha infantil que o espera na noite de Natal. Não preciso nem espero que eles me reconheçam um dia. O que quero é que cada vez mais a ilusão perdure e que a cada Natal ela possa ser renovada, e renovada e renovada.

Talvez assim, a gente aprenda um pouco sobre humanidade e compaixão. E aprenda de uma vez por todas que Papai Noel existe mesmo, de verdade.