domingo, 11 de setembro de 2011

À sombra das torres imortais




Onde você estava no dia 11 de setembro de 2001?

Esqueça se você não gosta dos americanos. Esqueça se você acha que o Bin Laden estava certo. Esqueça se você acha que por causa de todas as guerras o castigo foi pouco. Quero que você volte no tempo e se imagine dentro de um daqueles prédios.

Os barulhos ensurdecedores dos corpos caindo no chão ainda ecoam. O cheiro de querosene ainda está no ar. A fumaça ainda paira no céu, assim como a poeira, a fuligem, as folhas de papel caindo dos andares incendiados. Imagine-se trabalhando normalmente e de repente um tremor abala o seu prédio. Do nada, em fração de segundos, tudo voa e se destrói, pegando fogo. O calor insuportável te rouba o ar e seus pulmões ardem. A única alternativa é correr e tentar sobreviver.

Imagine-se sendo um bombeiro, um policial naquele dia. As pessoas ensanguentadas, queimadas, em pânico ou em choque gritando e pedindo socorro. E você diante de prédios enormes, com rasgos imensos se incendiando. Os corpos continuam caindo, amassando carros, se espatifando na calçada. Você entra no prédio na tentativa de salvar pessoas e tudo começa a cair na sua cabeça. A única possibilidade é correr, correr e correr. Mas não adianta correr. Não há pra onde correr. Tudo caiu e você está soterrado.

Aço retorcido, reboque, concreto, cinza, fogo, fumaça, poeira, escombros, corpos. Quando tudo desmoronou só restaram isso e um vazio enorme na paisagem da cidade. O mesmo vazio que ficou na alma dos nova-iorquinos. Enquanto aquela bola de cinzas e destroços avançava pelas ruas, ia engolindo 3 mil pessoas de uma só vez. Nem nos piores cenários de filmes de tragédia pudemos imaginar tal situação. E ela estava acontecendo ali, diante dos nossos olhos, diante da mídia do mundo inteiro. Diante de milhares de câmeras.

Os helicópteros das emissoras de TV filmavam sem parar. Verdadeiros abutres, esperavam a poeira baixar pra filmar de perto os entulhos das duas torres gigantes que agora se espalhavam pelo chão. Locutores, apresentadores, repórteres e comentaristas tentavam entender a situação mas a situação em si já era totalmente compreensível. Por horas e horas, dias e mais dias vimos sem parar as cenas e simplesmente não conseguíamos acreditar. A palavra ‘surreal’ nunca foi tão bem utilizada numa situação como aquela.

Pois bem. Ontem “comemoramos” (entre aspas mesmo) 10 anos desse acontecimento. 10 “curtos” anos. Vimos a resposta desordenada e completamente descabida do exército americano invadindo o Afeganistão e posteriormente o Iraque. Vimos o enforcamento de Saddam e mais recentemente a execução de Bin Laden. Vimos um país entrar numa guerra contra o terrorismo e simplesmente não sair dela. Vimos se erguer fachos de luz no lugar das torres e a leitura dos mais de 3 mil nomes dos mortos, ano após ano. E igualmente não vimos nada mudar na realidade mundial. O planeta continua se aquecendo, as catástrofes continuam acontecendo, a fome continua a mesma. A falta de grana idem.

A queda daqueles prédios fez surgir uma ausência bem maior que a presença. Não mudou nada no mundo, ele continua o mesmo mundinho pérfido de sempre. Só que aqueles prédios não estão mais lá. E é justamente a falta da sombra deles que os mantêm cada vez mais vivos. Parece que com o tempo perdemos um pouco da sensibilidade e vamos esquecendo também das dores e mágoas passadas. Ninguém gosta de se lembrar de uma dor. Mas é infinitamente melhor só se lembrar do que senti-la novamente. Imagino que é assim que os americanos pensam: é melhor “comemorar”, do que passar por tudo de novo. E eu respeito isso.

Enquanto vivermos veremos as mesmas imagens todo dia 11 de setembro, ano após ano. E com o mesmo estarrecimento iremos ver tais imagens. Só que nunca iremos nos colocar dentro daquele prédio, vivendo o inferno daquele dia. As torres não estão mais. Não há mais nada no lugar. Somente suas gigantes e silenciosas sombras imortais, que devem permanecer por lá por muito tempo.