domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ele e Ela

Eles se conheceram por acaso.
Ele acreditava que já tinham se visto na infância. Talvez numa pracinha, num chafariz.
Ela ria quando Ele dizia isso. Talvez até fosse mesmo.
Ele morava aqui.
Ela era de fora.
Por uma dessas coincidências enormes do destino, tudo conspirou para que Eles se encontrassem e tivessem uma história juntos.
Ele fez uma previsão: de que iriam ter uma grande crise e que um dia iriam se separar.
Mas se o amor fosse maior, se Eles realmente quisessem, ficariam juntos de qualquer maneira.
Ela acreditou nisso. Ele perguntou se Ela confiava Nele,
e ali, embaixo do toldo amarelo, Ele se declarou como nunca antes.
Ela subiu no ônibus e foi embora.
Quando Ela voltou, começaram a namorar. E tudo foi perfeito.

Ele chegava em casa exausto,
Ela já estava lá esperando por Ele.
Ele pendurava a camisa na quina da porta,
Ela lia uma revista que tinha chegado pelo correio. Ela adorava revistas.
Ele contava tudo o que tinha feito no dia, todas as idas e vindas,
Ela contava tudo o que tinha feito no dia, todas as idas e vindas,
e Ela deitava no colo Dele pra ver TV.
E eram felizes.

Ele cozinhava pra ela,
Ela comia com gosto.
Ela limpava a casa,
e Ele a amava com roupa de ficar em casa.
Ela não ria das piadas Dele,
mas Ele contava mesmo assim.
Ele cantava Nessum Dorma baixinho pra Ela dormir,
e Ela dormia.

Eles eram o que chamam por aí de “almas gêmeas”,
Um não era nada sem o Outro.
Idéias, gostos, experiências de vida... até as famílias eram parecidas.
Mas um dia tudo isso se perdeu.
Se foi, como se acabasse assim do nada.

Doeu demais. Machucou demais.
E era uma dor tão grande que só restava o rancor.
A vida fez com que seguissem caminhos tortuosos, estranhos, sombrios...
Ela se refugiou na família. Ele foi para o mundo,
gritando a dor dirigindo na estrada.
Ela chorava. Ele rugia.
E aí Eles não eram mais felizes.

O tempo passou. O tempo passa.
O tempo é o único que passa.
Mas eu tenho certeza de que alguma coisa Neles sobrou.
É como uma casa que se desmancha com o tempo. O telhado, as paredes podem até cair,
mas ainda sobra o chão por onde tanta coisa passou, que tanta coisa sustentou.
Restam as ruínas. Basta os donos resolverem construir novamente.
Só depende Deles. Ele e ela.