sábado, 26 de novembro de 2011

Papai Noel existe


A história é a seguinte: 

Não é novidade pra ninguém que eu me visto de Papai Noel todo Natal na minha família. Há 14 anos faço isso.  Tenho até fotos nas redes sociais com a fantasia. Todo ano é a mesma coisa, a expectativa de todos, aquela cobrança boa de “o Arnaldinho vai ser o Noel esse ano? Que legal!”, etc, etc, etc. Nos reunimos na casa de algum parente, levo a fantasia e a uma determinada hora me retiro de fininho, longe do alcance das crianças para “incorporar” o bom velhinho. Dá uma trabalheira danada vestir tudo, passar maquiagem, ajeitar barba, peruca, colocar barriga, aguentar um calor enorme sob a roupa quente, carregar o saco gigante com os presentes e ainda tocar o sininho. Ah, o sininho! Não há criança que não entre em transe ao ouvir o bendito sininho! Elas correm desesperadas pela casa à procura do som. É o sinal que o Papai Noel está ali, a poucos metros de distância deles trazendo seus presentes. E na hora que eles me vem a emoção transborda. Eles pulam, gritam, riem, abraçam seus pais agradecendo a presença do Papai Noel bem ali, diante deles. Se o Noel está chegando, é sinal de que eles irão ganhar presentes, os tão sonhados e desejados presentes que eles pediram o ano todo, fruto de meses de bom comportamento, de comerem todos os legumes, tomarem banho e fazerem as tarefas da escola.

Mesmo com toda a fantasia, com todo o peso, com todo o calor e trabalhão que há para me transformar num velhinho de barba de plástico branca, roupa de frio vermelha (nesse calor senegalês que vivemos) e botinas pretas, no momento em que vejo as expressões de felicidade das crianças, esqueço de tudo. Sou, naqueles breves momentos, o Papai Noel sim. Existo na ilusão das crianças como resultado de um ano inteiro de expectativa e espera. Para os pais também represento algo positivo, pois muitos usam a vinda do Noel como moeda de troca com os filhos: “Se você parar de chupar chupeta o Papai Noel virá no Natal te trazer o presente que você pediu”. E funciona. Fico quase sem a ceia, perco parte da festa, mas no final o resultado é recompensador. Nada paga o olhar de uma criança diante do Papai Noel em pessoa lhe entregando um presente, por mais simples que for.

Pois bem. Faço esse depoimento para introduzir somente agora o que eu realmente quero contar, para provar que o Papai Noel existe sim, tudo é uma questão de acreditar.

Há alguns dias, fui convidado para me fantasiar de Papai Noel e entregar presentes em uma escolinha de ensino fundamental, na Região Norte de Rio Preto. Tenho uma prima que é professora e leciona lá para alunos de 5 e 6 anos. Atendendo ao seu pedido me preparei a semana toda. Pedi para minha mãe, D. Marize me ajudar com a fantasia. Tirar pra lavar, passar, pentear a barba e a peruca, arrumar os elásticos que prendem tudo em meu rosto, etc. No dia combinado, vesti a fantasia, encarnei o personagem, ensaiei no “Ho-Ho-Ho” e fui. Dirigindo sozinho pelas ruas de Rio Preto vestido de Papai Noel.

Chegando a escola as crianças já estavam reunidas no pátio. Não me viram entrar. Fiquei esperando numa sala, enquanto não dava a hora de eu aparecer e fechar a festa. Eis que num determinado momento, ouço gritos e choro de um menino do lado de fora da sala onde estou. Ao me levantar me deparei com uma criança, um menino, de pouco mais de 6 anos aos berros agarrado à grade do lado de fora dizendo que queria ver quem era, que ia entrar pra ver quem eu era.

Não entendi bem ao certo o que estava acontecendo, mas permaneci imóvel, aguardando alguém vir tirar o menino que estava pendurado na grade, aos prantos e gritos de desespero.
Minha primeira reação foi a de imaginar que ele estaria com medo do Papai Noel. Isso é normal e comum até em várias crianças. O garoto desceu da grade e o perdi de vista. Porém, segundos depois, de uma forma que até agora não entendi, o menino irrompeu a sala onde eu estava aos gritos, avançando pra cima de mim na tentativa de tirar minha fantasia, principalmente minha barba e cabelo postiços. Levantei na hora com o susto e com a possibilidade de ele estragar tudo, se agarrar a barba e me desmontar por completo. Sozinho na sala, com a criança completamente transtornada, lutei com literalmente para mantê-lo longe de mim tentando argumentar, falar com ele. Em vão.

A criança parecia estar dominada por um espírito demoníaco. Totalmente fora de controle. Gritava, urrava, avançava pra cima de mim com um ódio irascível de alguém que ou tem medo ou quer muito destruir algo. Dizia pra eu arrancar tudo, tirar a barba, que ele estava vendo que era mentira, que via a costura (!!!) da minha barba, que era pra eu tirar a touca vermelha da minha cabeça. Afastando da criança, me vi acuado, num canto de parede com aquele menino totalmente fora de controle que gritava em minha direção chorando, tentando me arrancar a barba e se jogando no chão. Confesso que foram longos minutos até eu me controlar também e tentar pensar em algo rápido, ou pra sair dali ou pra contornar a situação.
Até que finalmente apareceu um rapaz e segurou o menino. Porém, nem ele dava conta. Ao ser afastado de mim aí que o garoto gritou mais, se jogou mais, lutou mais. O rapaz era funcionário da escola (secretário acho) e tentou controlar o menino que se debatia aos berros. Entre um grito histérico e outro, disse que o menino era “hiperativo” e que a mãe não cuidava. A verdade é bem outra. Descobri depois que o menino tem graves problemas na família – se é que existe uma família – uma irmã paralítica, um irmão mais velho envolvido com tráfico e a mãe provavelmente usuária de drogas. Perguntei o nome da criança, ele me disse e à partir dali comecei a chamar o menino diretamente pelo nome. Nesse momento, a situação começou a se inverter.

Entre um grito e outro, durante as tentativas de acalmar a criança, o funcionário perguntava algumas coisas para ele que respondia automaticamente. Minha experiência como jornalista serviu pra alguma coisa aí. Entre um grito e outro, ele disse nomes e lugares desconexos e eu fui só ouvindo, reunindo informações. Até que num determinado momento liguei os pontos e perguntei sobre se a bicicleta do seu irmão era branca ou marrom – tentando mostrar à ele que, por ser mesmo Papai Noel, eu sabia de tudo, inclusive que irmão tinha uma bicicleta. Só não me lembrava se branca ou marrom.

O garoto parou na hora de gritar. Me olhou com desconfiança. Esperou alguns segundos e disse que era marrom.

Eu estava no caminho certo.

Fui perguntando outras coisas, se ele já tinha pedido o seu presente de final de ano, se já tinha andado de carro, se gostava de chicletes, se tinha a mochila do Ben 10, coisas de criança que fazem parte do universo deles. Para algumas perguntas obtive respostas, para outras não. Mas o importante é que ele foi se acalmando, parando de chorar e de gritar. E principalmente parando de tentar tirar minha barba. Dei uma folha de papel e um lápis a ele e pedi para que me desenhasse um carro onde gostaria de andar. Na hora começou a fazer seus rabiscos, botando rodas onde não tinha, desenhando as pessoas dentro do carro. Fui perguntando onde ficariam as portas, onde ele colocaria o estepe, onde ficava o motor, etc. O menino foi se distraindo, foi desenhando até que parou por completo de chorar.

A cartada final foi quando perguntei quantos amiguinhos dele já tinham estado tanto tempo assim, de perto, conversando com o Papai Noel. Ele ficou em silêncio. Só me olhou e continuou a desenhar seu carro imaginário.

Foram 40 minutos ou mais. Uma eternidade. Eu, vestido de Papai Noel, numa sala com uma criança em surto, gritando que era mentira, que eu não era Papai Noel de verdade. Uma cena surreal, garanto.

Instantes depois me chamaram para o grande momento. O menino ficou na sala enquanto fui para o pátio, aparecer para as outras crianças. A recepção foi extremamente diferente! Milhares de sorrisos, acenos, gritinhos de “êêêêêêêêêê!!!” ecoavam por toda a escola. A felicidade estava de volta e eu podia interpretar o personagem que eu estava ali para interpretar. Foi um sucesso.

Entreguei presentes para alguns. Todos me olhavam com aqueles olhos esperançosos de “será que eu vou ganhar alguma coisa?”. Peguei o microfone e disse que iria de sala em sala entregando os presentes – que realmente ganharam. São crianças carentes, a maioria vivendo abaixo da linha da pobreza, que ganham todos os anos de doadores anônimos, padrinhos de natal, seus presentes pedidos em cartinhas. Uma troca de roupa, um par de sapatos, um brinquedo, uma escova de dentes. Tudo numa sacolinha de tectel. Mas o barato da coisa não era a sacolinha em si. Era o Papai Noel ali, entregando para eles. Era isso que eles mais queriam.

Terminando o evento no pátio eu deveria seguir para as salas de aula onde estavam as crianças. Foi neste momento que, do nada, surge quem? Aquele mesmo menino, que minutos antes lutava comigo na tentativa de provar que eu era uma fraude. Agarrou minha mão com força (com uma força atípica para meninos naquela idade) e me puxou para uma sala de aula. Daquele momento em diante ele foi meu “ajudante”. Olhei para ele e perguntei se ele queria me ajudar. A resposta foi sim. Disse à ele que me levasse em todas as salas de aula pois não conhecida direito os caminhos e ele me guiou, sala por sala, agarrado em mim.
Visitamos todas as salas. Em cada uma delas ele ia à frente, abria a porta e parava ao meu lado. Eu falava com as crianças, acenava, perguntava o que cada um queria, entregava os presentes e seguia em frente. E o garoto ali, como meu fiel escudeiro. Já não tentava me desmontar, nem puxar minha barba. Só ficava ao meu lado, hora segurando minha mão, hora agarrado à minha perna.

Ao final do percurso ele encontrou novamente aquele funcionário que havia tentado lhe segurar na sala onde estávamos antes. O rapaz lhe disse para voltar pra sala de aula, pois seu presente ia ser levado embora. Ele se despediu de mim com um tchau rápido e saiu correndo em direção à sua classe. Não o vi mais.
Ainda vestido de Papai Noel, cumprimentei a direção da escola, sai e fui para o meu carro estacionado na rua. Voltei pra casa me desmontando aos poucos, ainda tentando entender tudo o que eu tinha presenciado ali. Fui do inferno ao paraíso em minutos e ainda tentava digerir tudo.

Conclui que aquele menino é o reflexo de muitos meninos e meninas que hoje existem por ai. Crianças que tem sua infância ceifada por dramas familiares longe da nossa confortável realidade social burguesa. O buraco é mais embaixo, é mais complexo do que a gente pode imaginar. Aquele garoto teve todos (TODOS) os seus sonhos sobre Natal e Papai Noel destruídos em alguma parte da sua infância perdida. Sua revolta e agressividade, a forma como ele me olhava, o ódio que ele nutria por aquela figura estava estampado na sua expressão de grito e horror diante de uma figura que ele já, com tão pouca idade, sabia que não existia. Ele sabia que eu não era o Papai Noel porque sempre lhe foi dito que Papai Noel não existe. Seja por conta de um prazer sádico dos pais em torturar os filhos pequenos, seja pelo fato de que se disserem que Papai Noel não existe, não precisam comprar presentes e ai sobra mais dinheiro para drogas, cachaça e cigarro. Destruir a ilusão na cabeça de uma criança é mais fácil. Nutrir essa ilusão é que é difícil. Portanto, “Papai Noel não existe moleque. E sai daqui, me deixa em paz!”.

Mesmo diante desse cenário todo, mesmo contra a desesperança que essa criança tinha, sua falta de fé num ícone tão forte quanto o Natal, no final, ele aceitou a ideia. Mesmo que por poucos minutos. Ao me acompanhar pela escola, ao me guiar como “ajudante”, o menino pode ter acreditado que sim, Papai Noel existe. Afinal de contas, ele estava ali do lado dele, entregando presentes para as outras crianças. Ai poderão vir os psicólogos me criticar dizendo que eu criei uma ilusão na cabeça da criança e que isso é prejudicial. Dane-se! Pra mim, naqueles rápidos minutos, eu fui Papai Noel de verdade para ele e só isso já me basta. Tenho a mais absoluta certeza de que, daqui pra sempre, ele irá se lembrar disso. Serei eterno na memória daquele menino, uma memória boa diante de tantos horrores que ele deve ver e passar todos os dias.

Quando digo que Papai Noel existe, digo com conhecimento de causa. Ele é real e palpável para cada criança que acreditar nele. Ele vive na mente, em cada cabecinha infantil que o espera na noite de Natal. Não preciso nem espero que eles me reconheçam um dia. O que quero é que cada vez mais a ilusão perdure e que a cada Natal ela possa ser renovada, e renovada e renovada.

Talvez assim, a gente aprenda um pouco sobre humanidade e compaixão. E aprenda de uma vez por todas que Papai Noel existe mesmo, de verdade.

sábado, 22 de outubro de 2011

Essências

Duas versões da mesma música.
Esta é a do Zucchero -  Tutti i colore della mia vita. Confira:



Esta é a versão original  -  I won't let you down, de Ph.D.



Os ritmos são COMPLETAMENTE diferentes, mas as letras se mantiveram bem parecidas.

É mais ou menos assim na vida. Podemos até seguir caminhos diferentes, mas nossas essências continuam as mesmas, não importa quanto tempo passe.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ainda os Vilões

“As palavras ainda ecoam na minha mente. Parece que foi ontem que tudo se encaixou e que eu descobri que havia sobrevivido à explosão.
Nunca tomei nenhuma atitude sem ao menos pensar nas consequências dos meus atos. Responsabilidade. Palavra que carrega um enorme conceito. Luto também por isso e pelo que ela representa hoje em dia. Pode parecer demagogia, mas esse ideal tão nobre e heroico, não é hoje defendido justamente por um herói, mas sim por mim, o vilão.
Vitimismo? Sentimento de pena? Não. Já passei dessa idade e dessa fase. Lido com fatos. Preciso encará-los de frente toda manhã, sem exageros, sem paixões. Aliás, engraçado falar em paixões agora. O que é um vilão a não ser uma criatura extremamente apaixonada? Está em sua essência, em sua constituição ser apaixonado. Por si ou por alguém, mas apaixonado. Tudo que ele faz, no final, é pra ter a atenção da mocinha, simples. Ele passa o filme todo tentando raptá-la para fazer com que ela se apaixone por ele. Mas aí chegam os heróis, esses bons moços sem nenhuma personalidade, sem defeito algum e a levam embora. Seria eu menos humano pelo fato de não seguir os estereótiopos de não ser alguém bonito ou ter boa aparência? Isso me tornaria o vilão – o fato de eu ser um ser humano falível e passível de erros?
Levanto todos os dias tendo que encarar o monstro terrível que sou, que me tornei. Insensível, sem coração, caminho rumo à maldade do dia. Luto comigo mesmo pra controlar a fúria dentro de mim, a vontade de sair destruindo tudo. É quando recebo às vezes um sinal, um simples gesto que me faz parar e acalmar. Confesso que nesse turbilhão de pensamentos desencontrados, de ira sobre ira, ódio sobre ódio, este pequeno sinal seja capaz de fazer tudo parar, ficar suspenso em animação. É como um oásis nesse deserto de sentimentos que vivo. É quando o vilão tem sua epifania e se sente humano, carne e ossos. É quando ele se sente mortal e sincero. Esses raros momentos fazem com que eu esqueça um pouco esse lado “Hulk” e acione meu lado Banner, o nerd raquítico criado pela tia.
Só eu sei da responsabilidade que carrego. Pra ser o que sou preciso estar sozinho. Pelo menos por enquanto. Não suporto a ideia de causar dor e/ou sofrimento em alguém. Quem sou eu, reles mortal, pra achar que nessa altura encontraria um anjo? Não mereço anjos. Tenho que trilhar meu caminho sozinho. Enfrentar meus medos, minhas frustrações, minhas angústias. Lutar cada dia contra aquilo que sempre achei estar traçado pra mim – a solidão. Entender que agora, nesse momento, só a cura total pode me colocar de volta no eixo. Mesmo que o preço a ser pago seja ser pra sempre o vilão e não ter a mocinha nunca mais.
Mesmo assim tenho esperança. E por mais incrível que possa parecer, posso deixar de ser o vilão pra poder voltar a acreditar em Deus.”

Bruce Banner

domingo, 11 de setembro de 2011

À sombra das torres imortais




Onde você estava no dia 11 de setembro de 2001?

Esqueça se você não gosta dos americanos. Esqueça se você acha que o Bin Laden estava certo. Esqueça se você acha que por causa de todas as guerras o castigo foi pouco. Quero que você volte no tempo e se imagine dentro de um daqueles prédios.

Os barulhos ensurdecedores dos corpos caindo no chão ainda ecoam. O cheiro de querosene ainda está no ar. A fumaça ainda paira no céu, assim como a poeira, a fuligem, as folhas de papel caindo dos andares incendiados. Imagine-se trabalhando normalmente e de repente um tremor abala o seu prédio. Do nada, em fração de segundos, tudo voa e se destrói, pegando fogo. O calor insuportável te rouba o ar e seus pulmões ardem. A única alternativa é correr e tentar sobreviver.

Imagine-se sendo um bombeiro, um policial naquele dia. As pessoas ensanguentadas, queimadas, em pânico ou em choque gritando e pedindo socorro. E você diante de prédios enormes, com rasgos imensos se incendiando. Os corpos continuam caindo, amassando carros, se espatifando na calçada. Você entra no prédio na tentativa de salvar pessoas e tudo começa a cair na sua cabeça. A única possibilidade é correr, correr e correr. Mas não adianta correr. Não há pra onde correr. Tudo caiu e você está soterrado.

Aço retorcido, reboque, concreto, cinza, fogo, fumaça, poeira, escombros, corpos. Quando tudo desmoronou só restaram isso e um vazio enorme na paisagem da cidade. O mesmo vazio que ficou na alma dos nova-iorquinos. Enquanto aquela bola de cinzas e destroços avançava pelas ruas, ia engolindo 3 mil pessoas de uma só vez. Nem nos piores cenários de filmes de tragédia pudemos imaginar tal situação. E ela estava acontecendo ali, diante dos nossos olhos, diante da mídia do mundo inteiro. Diante de milhares de câmeras.

Os helicópteros das emissoras de TV filmavam sem parar. Verdadeiros abutres, esperavam a poeira baixar pra filmar de perto os entulhos das duas torres gigantes que agora se espalhavam pelo chão. Locutores, apresentadores, repórteres e comentaristas tentavam entender a situação mas a situação em si já era totalmente compreensível. Por horas e horas, dias e mais dias vimos sem parar as cenas e simplesmente não conseguíamos acreditar. A palavra ‘surreal’ nunca foi tão bem utilizada numa situação como aquela.

Pois bem. Ontem “comemoramos” (entre aspas mesmo) 10 anos desse acontecimento. 10 “curtos” anos. Vimos a resposta desordenada e completamente descabida do exército americano invadindo o Afeganistão e posteriormente o Iraque. Vimos o enforcamento de Saddam e mais recentemente a execução de Bin Laden. Vimos um país entrar numa guerra contra o terrorismo e simplesmente não sair dela. Vimos se erguer fachos de luz no lugar das torres e a leitura dos mais de 3 mil nomes dos mortos, ano após ano. E igualmente não vimos nada mudar na realidade mundial. O planeta continua se aquecendo, as catástrofes continuam acontecendo, a fome continua a mesma. A falta de grana idem.

A queda daqueles prédios fez surgir uma ausência bem maior que a presença. Não mudou nada no mundo, ele continua o mesmo mundinho pérfido de sempre. Só que aqueles prédios não estão mais lá. E é justamente a falta da sombra deles que os mantêm cada vez mais vivos. Parece que com o tempo perdemos um pouco da sensibilidade e vamos esquecendo também das dores e mágoas passadas. Ninguém gosta de se lembrar de uma dor. Mas é infinitamente melhor só se lembrar do que senti-la novamente. Imagino que é assim que os americanos pensam: é melhor “comemorar”, do que passar por tudo de novo. E eu respeito isso.

Enquanto vivermos veremos as mesmas imagens todo dia 11 de setembro, ano após ano. E com o mesmo estarrecimento iremos ver tais imagens. Só que nunca iremos nos colocar dentro daquele prédio, vivendo o inferno daquele dia. As torres não estão mais. Não há mais nada no lugar. Somente suas gigantes e silenciosas sombras imortais, que devem permanecer por lá por muito tempo.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Mudança

É. As coisas mudam.

Talvez seja por isso que estejamos aqui: para que as coisas mudem. Zeus, quantas coisas eu já vi e vivi que mudaram radicalmente desde sua origem até hoje? Quantas coisas eu desejei num dia com a mais plena convicção e hoje, quando olho pra trás, vejo igualmente com a mesma convicção que estava errado. Por isso que eu digo: as coisas mudam.
A isso nós convencionamos um nome: passado. E aprendemos com ele. O passado serve pra isso, pra nos lembrar dos erros que cometemos na expectativa de não os cometermos mais. É complicado, eu sei, mas é a única forma de seguir em frente. Eu acabei aprendendo com meus erros, com o meu passado, até mesmo meu passado recente já me ensinou alguma coisa. O que importa é aprender. E seguir em frente.
Mas talvez seja por isso que as coisas mudem. Porque olhamos no passado, aprendemos com nossos erros e tentamos evitá-los, daí as mudanças. O que muda na verdade são as pessoas e não os fatos. Os fatos estão aí sempre, as histórias se repetem.  Mas as pessoas não. Essas são constantemente trocadas. E mudam do dia pra noite.
Há também aquelas pessoas que não aceitam as mudanças e querem viver no passado. Mesmo que esse passado seja presente dia a dia. Algumas pessoas simplesmente não aceitam o fato de terem perdido um grande amor, uma oportunidade na vida e vivem todos os dias a lamentar o que perderam. Outras, fogem das mudanças, fogem da possibilidade do novo e vendem a imagem de que mudara sim, que deixaram o passado pra trás. Mentira! Quando estão sozinhas choram desejando a volta daquilo que viveram. Passam os dias mentindo pra si mesmas.
Ainda existem outras pessoas que, por mais que a vida lhes mostrem outros caminhos, insistem em continuar sofrendo, em continuar no erro, simplesmente pelo medo de mudar e perder algo certo. A isso eu chamo “conformismo”, não amor. O amor sim aceita mudanças, o medo não. O medo corrói qualquer tipo de sentimento, qualquer tipo de esperança. Não ter coragem pra mudar, pra dizer ‘chega’, pra parar de sofrer é se conformar a viver uma vida pela metade. E não há metade que sobreviva sem o inteiro.
As coisas mudam. As pessoas mudam.
E são essas mudanças que nos fazem evoluir. Não há como prever o futuro, eu sei. Mas há como evitar que o mal aconteça. Como? Evoluindo, mudando sempre.

Sendo quem sabe, uma metamorfose ambulante.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Moby Dick

Há muito tempo queria ler Moby Dick. Por várias vezes tinha pegado o livro nas mãos mas nunca tinha conseguido terminar a leitura. Hoje, depois de 30 anos, consegui ler até o final e entender sua mensagem.


Moby Dick é o mal interior dentro de todos nós. Aquela raiva inconteste, aquele ódio irracional que rompe o peito e que só nos dá vontade de gritar e destruir tudo ao redor. Aquela sensação de Ira que percorre nosso corpo inteiro e parece se perpetuar por alguns segundos. O autor, Herman Melville, personifica no gigantesco cachalote branco esse mal que persegue o homem desde o início dos tempos. Os religiosos chamam de demônio. Os céticos chamam de desilusão. Já os psicólogos chamam de depressão. Independentemente da versão, Moby Dick é o mal encarnado e à espreita. Aquela sombra desconhecida que de vez em quando surge em nossos corações e toma o lugar da nossa consciência.

É bem verdade que na outra ponta está o Capitão Acab, homem tomado pela obsessão de caçar e destruir a baleia que tempos antes, havia lhe atacado e arrancado sua perna. Acab enterra todos os seus sentimentos humanos e só tem por objetivo encontrar o monstro e enfrentá-lo mais uma vez. Nem que isso lhe custe a vida. No fim, o confronto inevitável acontece e ambos, Acab e Moby Dick são tragados para o fundo do mar, onde devem estar travando sua batalha até hoje. 
 
Penso que cada um de nós tem um Moby Dick dentro de si. Eu tenho. Em algumas ocasiões o mal e a desilusão tomam conta de mim e de minhas ações de forma incontrolável. Lembro de tudo de ruim que já me aconteceu, de todas as esperanças perdidas, de todos os que já se foram, de tudo aquilo que vi e vivi. Pois eis que na mesma hora, surge uma força sei lá de onde que me impele à lutar contra isso. Me põe de pé, com um arpão na mão, em plena tempestade de sentimentos e grita: "ATAQUE!". E lá vou eu, enfrentar esse monstro que mora dentro de mim. É nessas horas que não paro de lutar, mesmo diante do maior cachalote branco do mundo.

"E ele empilhou na corcova da baleia branca o acúmulo de raiva e ódio que sua raça sentia. Se seu peito fosse um canhão, nele teria disparado seu coração." (pág. 222)

"Avanço pra ti, ó cachalote destruidor e invencível, até no último instante luto contigo. Do coração do inferno te apunhalo e por ser tão grande o ódio que me inspiras, cuspo sobre ti o meu último alento". (pág. 645)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Viagem

Uma pessoa muito especial pra mim nesses últimos tempos irá fazer uma grande viagem daqui há alguns dias. Assim que soube fiquei num estado tal de alegria por ela que dava a impressão de que quem estava indo viajar era eu! Ouvi na voz dela toda a expectativa, toda a emoção que isso trás para uma pessoa. Toda viagem é uma mudança. Serve como um ponto final em alguns capítulos da vida ao mesmo tempo dá inicio à outros tantos.

Sempre gostei de viajar. É bem verdade que nunca tive muitas oportunidades, mas sempre que foi possível, dei minhas voltas por aí. A rotina nos deixa tacanhos demais, presos demais e o mundo é muito vasto pra deixemos ele de lado. Meu grande sonho é uma viagem internacional. Ok, já fui pro Paraguai e pra Argentina, mas quando digo internacional, é Internacional mesmo, tipo Europa, Ásia, America do Norte, coisas dessa magnitude. Quando era criança, o meu sonho era conhecer a Disney ou ir para o Egito ver as Pirâmides. E eu ainda tenho fé que vá pra esses lugares um dia. Outro sonho, esse mais focado nas minhas origens, é a Itália. Ah, a Itália! Terra de onde meus antepassados vieram e tão importante pra definir quem sou hoje. Um dia eu vou tomar um café lá, certeza!

Essa pessoa que irá viajar merece isso. Ele precisa disso. Precisa de um tempo só pra ela, sem a vigilância dos pais e a patrulha dos amigos. Ela precisa mais pra viajar dentro de si mesma do que em terra firme. Precisa reorganizar internamente sua geografia, descobrir novas paisagens dentro de si mesma, pisar nas areias de suas próprias memórias pra afinal, quando retornar de vez, se permitir viajar ao lado de alguém pra vida inteira. E eu tenho certeza que ela vai conseguir isso.

É muito complicado pra gente que fica expressar em palavras o que sentimos. Disse à ela que pra quem vai o turbilhão de imagens e sentidos faz com que a pessoa entre em estado de êxtase com tudo o que estará ao seu redor. A nós que ficamos, fica a presença da ausência, a saudade de abre um rombo no peito e dói. Mas eu vou pôr um sorriso pra tapar essa saudade, pensando o seguinte: cada sorriso dela na hora em que voltar, contando como foi vai valer cada segundo de saudade que a gente sentiu por aqui. Mesmo porque, quando ela voltar, vai nos contar os detalhes e ai a coisa fica mais interessante. Porque todos nós estaremos ali, do lado, ouvindo as histórias tendo viajado também um pouquinho. Mas no veículo de transporte mais rápido e seguro do mundo: a Imaginação.

Quem viaja carrega consigo na mala as lembranças de cada um que ficou e acaba se tornando os olhos, ouvidos, boca, nariz, mãos e pés de todos eles. É por isso que eu fiquei feliz quando soube. Sei que ela levará de mim um pouquinho e que esse pouquinho verá coisas inacreditáveis por ai afora. Pensando assim, amorteço um pouco da saudade que vou sentir.

No lugar de onde eu venho, quando alguém parte pra longe a gente diz: “Viva a Viagem!”. É só o que eu posso dizer à ela. Que ela viva essa viagem e que retorne cheia de coisas novas. 

terça-feira, 10 de maio de 2011

Amizade

Esses dias atrás, reencontrei um velho amigo. Amigo mesmo, daqueles que podem passar os anos e a gente retoma a conversa do último ponto em que paramos e o papo segue sem fim. Chamo pessoas mais próximas de mim de “meu amigo, meu irmão” (uma alusão à um político que admiro muito, que também chama os outros dessa forma)  mas nesse caso, esse amigo que reencontrei chega a ser realmente um irmão, não de sangue, mas de vida.

É muito bom ter amizades dessa maneira. É uma troca de confiança, um suporte que temos em diversos momentos da nossa existência. Some-se à isso o tempo, que não perdoa e nos castiga com a velhice. Porém, mesmo com a ação devastadora do tempo, uma amizade forte não se rompe, não se esvai. E nesse ponto que eu quero chegar: pode passar o tempo que for e as amizades boas de verdade não desaparecem.

Nesse reencontro conversamos sobre muitas, muitas coisas. Relembramos aventuras, vitórias, alegrias, tristezas, acidentes, amores, família... até que chegou um ponto em que começamos a fazer um balanço das coisas que nós, com a idade que tínhamos na adolescência, pensávamos ter feito ou ser quando chegássemos à idade de temos hoje. Foi aí que tivemos um choque. Um choque de realidade: tudo o que imaginamos naquela época não aconteceu! Nossas vidas tomaram rumos totalmente diferentes daquilo que havíamos planejado. E mais, ambos tinham chegado aos 30 anos sem ter casado e sem ter tido filhos! Não havíamos formado famílias como nós tanto sonhávamos!

Talvez tenha sido falha no planejamento ou uma bela ironia do destino, mas nada, simplesmente nada aconteceu da maneira como idealizávamos. Mas tinha também outro fator ligado à isso: tanto ele quanto eu estamos contentes com o que somos hoje. E não mudaríamos nada se pudéssemos voltar ao passado. Incrível né? Foi a primeira coisa que perguntei à ele: “Mas e se você pudesse voltar e alterar?”; “Não mudaria nada cara! Tudo aconteceu na hora certa, do jeito que tinha que acontecer”. E eu concordei.

Temos sempre esse desejo, de voltar no tempo e fazer outras escolhas que – hipoteticamente – poderiam mudar nossa condição atual. Não vejo dessa forma. Cheguei à uma conclusão depois de 30 anos: tudo o que sou é fruto do que a vida e eu mesmo quis. Nem mais, nem menos. Não é discurso conformista, mas honestamente não me arrependo de nada na minha passagem até agora por aqui. Tenho dentro de mim uma convicção tremenda de que fiz tudo o que estava ao meu alcance para ser feliz e deixar os outros felizes. É claro que nesse caminho magoei pessoas. Mas também fui magoado. Fiz outros sofrerem. Mas sofri como os diabos. Enfim, sou um grande quebra-cabeças de mim mesmo e ainda não fui totalmente montado. Cada dia é uma pecinha que encaixo da melhor forma. E assim vou vivendo.

Sempre quis casar. Sempre quis ter filhos. E é isso o que procuro hoje em dia, uma pessoa que compartilhe dessa vontade e que queira construir algo em conjunto. Sempre quis ter uma mulher ao lado pra literalmente transformar em rainha. Se não tive ainda, talvez não tenha sido a hora, quem sabe? E esse foi o ponto principal da conversa. Quando era adolescente, queria isso logo. Hoje compreendo que tudo teve a ver com o tempo e que se ele ou as coisas não aconteceram daquela forma, cabe à mim, de agora pra frente administrar esse mesmo tempo à meu favor.

Concluí que se tivesse formado uma família há 10 anos atrás, hoje seria um homem frustrado, preso em mim mesmo e infeliz. Hoje, com a cabeça que tenho e com as possibilidades que se mostram pra mim, vislumbro outro futuro. Tudo à seu tempo. Tudo na sua hora.

Ali, encostado no capô do carro e conversando com esse grande amigo, puder perceber que certas coisas não mudam. A amizade é uma delas. E a vontade de encontrar minha rainha também.

sábado, 12 de março de 2011

O Tempo

Eu sempre achei que o tempo é a gente quem faz. Sempre fui dessa premissa. A gente arranja tempo pra tudo quando está afim de algo, de alguma coisa. A única coisa que não temos como controlar no tempo é o fato de ele vir, por que o até o ato de ele voltar, nós controlamos. Estamos sempre dentro do tempo e não o contrário.

O tempo passa literalmente diante dos nossos olhos. Quando você começou a ler esse texto já é passado, reparou? Porém você sabe que se continuar a ler será futuro, o futuro de terminar essa leitura, compreender o que eu quis dizer e partir pra fazer outra coisa. Isso é o futuro. Portanto, vivemos no meio desse empurra-empurra, entre o passado e o futuro. A isto chamamos de ‘presente’. O agora acabou ser de tornar passado. E até o final dessa frase já será futuro. Viu como é engraçado.

A grande questão é que você pode voltar ao passado. Sim, sim, exatamente! Se você parar de ler esse texto agora, pode correr os olhos e ver tudo o que já leu. Automaticamente você se lembrará do que escrevi, uma vez que compreendeu tudo o que estava escrito. Já com o futuro é diferente: É impossível querer saber o que eu escrevi aqui no final o texto, você não chegou lá ainda! Você pode até ler a última frase, a última palavra, mas não vai te fazer sentido algum se não ler o contexto todo até chegar lá. Posso estar falando aqui sobre o tempo e tal, e na última frase sei lá, falar de comida, uma coisa nada a ver. Você vai ficar se perguntando: “O que ele escreveu pra falar disso no final?”. Ou seja, por mais que você se ache completamente certo sobre como as coisas irão acontecer, por mais que você saiba o final, não vai ter tido a experiência de passar por ele, não vai saber como chegou ali. E ai não tem graça nenhuma.

É que nem aquele filme do Adam Sandler, “Click”. Ele ganha um controle remoto onde pode avançar ou retroceder na vida. Quando retrocede, vê as experiências boas e ruins que teve na vida. Isso o fizeram ser quem é. O problema é quando ele avança para o futuro. Ele vive no automático, sem sentido na vida. Enquanto tudo e todos vivem, ele se isola e os trata com total indiferença, afinal de contas ele mesmo não está lá e sim viajando no tempo, vendo até onde as coisas irão. Até que ele se dá conta de que as escolhas que fez são as que lhe moldaram o espírito e que não adianta viver no automático. O importante é viver. Seja lá como for.

É bem verdade que também tem muita gente que prefere viver no automático, passando a vida no sFF>>. Tem aqueles também que só vivem no passado, nostálgicos, lembrando tempos que já se foram e que não voltam mais. Ou seja, o passado é passado e o futuro eu não sei. Tem uma piada que eu ouvi esses tempos atrás: “Eu não sei o que vem pela frente. Mas que venha pela frente.” E mais ou menos isso.

Não adianta querer reviver velhas historias, abrir o baú e remexer o que já foi guardado há tanto tempo. Também não adianta querer fugir do futuro, deixar que as coisas simplesmente aconteçam e pronto, não estou nem aí. O importante é viver o presente, este sim que nos acompanha. Porque pode parecer filosofia barata, mas o presente é a única coisa que temos certeza que podemos fazer. Se quisermos mesmo, de verdade, podemos viver o presente. Automaticamente esquecemos o passado e construímos o futuro. Simples né?

Que sirva de lição para aqueles que gastaram o seu tempo lendo até aqui. Para os que entenderam o que escrevi, parabéns. Agora para os engraçadinhos que pularam tudo e estão lendo só agora, fica o meu recado. “Pois é, feijoada!”. Entendeu?





domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ele e Ela

Eles se conheceram por acaso.
Ele acreditava que já tinham se visto na infância. Talvez numa pracinha, num chafariz.
Ela ria quando Ele dizia isso. Talvez até fosse mesmo.
Ele morava aqui.
Ela era de fora.
Por uma dessas coincidências enormes do destino, tudo conspirou para que Eles se encontrassem e tivessem uma história juntos.
Ele fez uma previsão: de que iriam ter uma grande crise e que um dia iriam se separar.
Mas se o amor fosse maior, se Eles realmente quisessem, ficariam juntos de qualquer maneira.
Ela acreditou nisso. Ele perguntou se Ela confiava Nele,
e ali, embaixo do toldo amarelo, Ele se declarou como nunca antes.
Ela subiu no ônibus e foi embora.
Quando Ela voltou, começaram a namorar. E tudo foi perfeito.

Ele chegava em casa exausto,
Ela já estava lá esperando por Ele.
Ele pendurava a camisa na quina da porta,
Ela lia uma revista que tinha chegado pelo correio. Ela adorava revistas.
Ele contava tudo o que tinha feito no dia, todas as idas e vindas,
Ela contava tudo o que tinha feito no dia, todas as idas e vindas,
e Ela deitava no colo Dele pra ver TV.
E eram felizes.

Ele cozinhava pra ela,
Ela comia com gosto.
Ela limpava a casa,
e Ele a amava com roupa de ficar em casa.
Ela não ria das piadas Dele,
mas Ele contava mesmo assim.
Ele cantava Nessum Dorma baixinho pra Ela dormir,
e Ela dormia.

Eles eram o que chamam por aí de “almas gêmeas”,
Um não era nada sem o Outro.
Idéias, gostos, experiências de vida... até as famílias eram parecidas.
Mas um dia tudo isso se perdeu.
Se foi, como se acabasse assim do nada.

Doeu demais. Machucou demais.
E era uma dor tão grande que só restava o rancor.
A vida fez com que seguissem caminhos tortuosos, estranhos, sombrios...
Ela se refugiou na família. Ele foi para o mundo,
gritando a dor dirigindo na estrada.
Ela chorava. Ele rugia.
E aí Eles não eram mais felizes.

O tempo passou. O tempo passa.
O tempo é o único que passa.
Mas eu tenho certeza de que alguma coisa Neles sobrou.
É como uma casa que se desmancha com o tempo. O telhado, as paredes podem até cair,
mas ainda sobra o chão por onde tanta coisa passou, que tanta coisa sustentou.
Restam as ruínas. Basta os donos resolverem construir novamente.
Só depende Deles. Ele e ela.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Separate Ways (Worlds Apart)

Here we stand, world's apart, hearts broken in two, two, two
Sleepless nights, losing ground
I'm reaching for you, you, you
Feelin' that it's gone, can change your mind
If we can't go on to survive the tide love divides
Someday love will find you, break those chains that bind you
One night will remind you
How we touched and went our separate ways
If he ever hurts you, true love won't desert you
You know I still love you though we touched
And went our separate ways
Troubled times, caught between confusions and pain, pain, pain
Distant eyes, promises we made were in vain, in vain, in vain
If you must go, I wish you love, you'll never walk alone
Take care my love, miss you love
Someday love will find you, break those chains that bind you
One night will remind you
How we touched and went our separate ways
If he ever hurts you, true love won't desert you
You know I still love you
I still love you girl, I really love you girl
And if he ever hurts you, True love won't desert you
No, no, No!