sábado, 20 de março de 2010

Sem críticas desta vez...

Mais um texto publicado na Revista Seven Nights, em Rio Preto, em Junho de 2006. E já que faltam só três meses pra Copa, nada mais oportuno. Confiram:


 

Contrariando todas as expectativas, não irei falar mal da Copa do Mundo. Desta vez não irei avacalhar com uma das mais esperadas e festejadas celebrações do brasileiro. Aliás, já ouvi umas três ou quatro vezes que “Copa é a única diversão do brasileiro!”, “é a única vez que o povo tem um pouco de felicidade!”. Isso é lindo, tocante, comovente!!! 

Também não irei falar absolutamente nada sobre matar o serviço pra assistir os jogos da seleção. O brasileiro está mais do que certo em perder praticamente metade do seu dia de trabalho pra ficar diante da TV por 90 minutos. Juro que não irei fazer nenhuma crítica ao fato de todos – realmente todos – deixarem seus escritórios, repartições públicas e lojas pelo menos uma hora antes pra poder ir pra casa e de lá torcer pela nossa grande seleção. Muito menos irei criticar as escolas, que deverão dispensar os alunos das aulas para que eles possam exercer seu patriotismo em casa, cercado de seus familiares. Pra frente Brasil

Juro, prometo de verdade que não escreverei uma linha sequer neste artigo sobre o governo e a Copa do Mundo. Ignorarei completamente as votações para aumento de salário dos deputados, os projetos com lobby de grandes empresas, os processos de cassação sendo engavetados.... Serei complacente com tudo mesmo. Não tecerei comentários maldosos sobre o presidente e sua falta de conhecimento do mundo ao seu redor (“Eu não sabia, não sabia!!!”), muito menos sobre a corrupção alastrada no governo. 

Estamos em festa! Viva o Hexa! Viva a Seleção! Trocentos milhões em ação, pra frente Brasil! Verde e Amarelo nas ruas, carros e bandeiras para todos os lados. Nosso nacionalismo desperta repentinamente de quatro em quatro anos, não é verdade? Realmente não usamos muito a bandeira e as cores nacionais sem ser em época de Copa... não sei bem ao certo porque, mas desde o dia 09, coloquei uma bandeira na janela de casa. Agora sou brasileiro. 

Esse nacionalismo me contagia. Sou mais um técnico da seleção: “Põe Cicinho, tira Cafú”; “O Roberto Carlos é um expert, mas tem que parar de ser fominha”; “O Ronaldo não tá jogando nada, hein... escala o Kaká, Parreira!!!”. E juro que assistirei a todos os programas de comentários pós-jogo e em todos os canais: Globo, Record, Band, RedeTV. Enfim, serei mais um nessa torcida rumo a esse título tããããããão importante para o país: o Hexacampeonato mundial! 

E depois do título, também não farei nenhuma crítica ao país ter parado por quase um mês. Afinal de contas, o comercio vendeu bem, os açougues venderam bem (aquele churrasquinho durante o jogo, hein?), os índices de violência simplesmente sumiram da Televisão. Tudo maravilha! Do que mais eu posso reclamar? 

Brasileiro é um bicho estranho. Torce, se esgoela, sofre. É capaz de brigar, agredir, até mesmo matar pelo futebol. Não satisfeito, depois que ganha grita, chora, beija a tela da TV, extravasa todo o sentimento contido no peito por quatro anos. Tudo por uma simples bola, 11 homens em campo e três barras de metal com uma rede pendurada. 

Depois eu é que sou o esquisito.