segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Rou, rou, rou...

Esta crônica foi publicada em dezembro de 2006, também na Seven Nights e no jornal Realidade Regional, de Potirendaba. Serve bem para esta semana em que celebramos o Natal.

Rou, rou, rou...
*Arnaldo F. Vieira

Noel estava na ponta da mesa, reunido com os duendes fazedores de brinquedos. Mamãe Noel acabava de trazer uma bandeja com vários copos de chocolate quente para os presentes.
Antes de começar a falar, limpou o pigarro da garganta (“Tenho de parar com aqueles cubanos, HAM-HAM”) e se ajeitou na cadeira arrumando a enorme barriga. Encarou um a um e começou a reclamar. Precisava mudar o Natal urgentemente! Já não agüentava mais sempre as mesmas piadinhas

– “Papai Noel, o senhor rói as unhas? RÔO, RÔO, RÔO. Ou então os trocadilhos com o tamanho do meu saco. O de brinquedos, Ziplik! Duende chato... E até mesmo insinuações muito maldosas de mim com as Renas, vê se pode! O Natal é sempre a mesma coisa há séculos. Comem pra caramba, nem me convidam prum tender, um pernil... Se por acaso dou uma atrasadinha (esse trânsito ta terrível) os pais já se revoltam, falam que a gente não existe e outras coisas mais. Além disso, qual criança acredita na gente? Só eu sei quantos tufos de barba me arrancam só pra ver se é de verdade. Por isso resolvi reuni-los aqui. Precisamos de propostas diferentes para esse Natal.

Silêncio geral. Depois de alguns instantes, lá no final da mesa, ergueu a mão um duende que tinha poucos dias de serviço. Estava estagiando ainda e sua única função era escrever o que estava sendo discutido na reunião. Mamãe Noel parou de servir as xícaras de chocolate por alguns instantes. Todos se viraram pra acompanhar o olhar dela e do “bom velhinho” sentado na outra extremidade da mesa.

Timidamente, o estagiário de duende levantou e ainda com a cabeça baixa virou-se em direção à Noel:
– Bom, er... eu acho que... hum... não sei... Ah, acredito que... talvez sei lá, se fosse possível...
– Fala meu filho, desembucha que eu não tenho tempo à perder...
– E se a gente... quer dizer, o senhor... assim... se nós estabelecêssemos um plano de metas baseando nos números de nossa produção atual e à partir desses cálculos, fizéssemos uma tabulação dos resultados, onde poderíamos observar as tendências de crescimento e resultados obtidos pelo Natal passado. Assim poderíamos apontar com certeza as falhas estruturais de nossos serviços e fazer uma previsão de metas para o próximo Natal.

Espanto. Silêncio sepulcral. Papai e Mamãe Noel petrificados e boquiabertos olhavam para o jovem duende.
– Meu filho... QUEM É VOCÊ?

O estagiário foi mandado para um setor remoto da linha de produção no pólo norte. Suas idéias eram revolucionárias demais para a cabeça do velho. Revolucionárias e complicadas. O Natal naquele ano foi exatamente igual a todos os outros. Nenhuma mudança.

Moral da História: Todos temos medo do novo, medo de tomarmos atitudes inovadoras, por mais complicadas que elas possam parecer. Se simplesmente não entendemos o pensamento das pessoas, ignoramos e voltamos a nossa mesma vidinha pacata.

O fim do ano esta aí. Mudanças para 2006? Não sei. Espero sinceramente que sim.
Ainda perguntam para Papai Noel se ele rói as unhas. E ele continua respondendo: Rou, rou, rou...

Boas festas! De coração.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Esquecidos

Outro texto meu publicado na Revista Seven Nights, de Rio Preto, em 2007.
Agora, lendo e republicando aqui na Internet, pude ver como certas coisas nunca mudam. O tempo passa e a gente continua vendo certas misérias. Esse texto gerou uma polêmica danada na época. Recebi inúmeros e-mails elogiando, outros criticando, mas no final o resultado foi positivo. Semanas depois, a Prefeitura de Potirendaba, através de uma lei municipal, começou a repassar uma verba para auxiliar o Lar São Vicente. Era o mínimo a ser feito diante de tanta tristeza. Leiam:


Esquecidos
*Arnaldo F. Vieira

A que ponto pode chegar a maldade humana?


O faz uma pessoa abandonar os pais à própria sorte, em um asilo, definhando e morrendo lentamente com o passar dos dias, meses e anos?
 

Meu pensamento está fixo nessas duas perguntas nos últimos dias. Comecei 2007 tentando encontrar alguma explicação plausível para a crueldade que certas pessoas cometem para com seus parentes. Visitei à poucos dias o Lar São Vicente de Paula, em Potirendaba. Lá, não encontrei pessoas, mas sim verdadeiros “pedaços de carne”. Por mais que os mantenedores da instituição lutem para conseguir recursos, batalhem e tenham auxilio financeiro da prefeitura e doações, nada supre o olhar vazio e sem vida dos 23 idosos que lá são atendidos.
 

E o pior: se fosse só lá que o esquecimento e a falta de humanidade estivessem presentes, eu estaria quieto. Só na região são mais de 20 instituições que cuidam de velhinhos abandonados, pessoas que quando jovens criaram filhos e até netos e hoje, se encontram largados, aguardando a morte em algum quarto de asilo. Conversando com o diretor do Lar São Vicente lá de Potirendaba, descobri que além de doentes, muitos dos idosos apresentam deficiências físicas que impedem a locomoção, o banho, etc. As enfermeiras e voluntárias que lá trabalham fazem o necessário para manter a saúde e bem estar dos idosos, mas nada consegue aplacar a solidão e o abandono que os familiares infligem aos seus parentes mais velhos.
 

Olhei aquelas pessoas, muitas delas verdadeiras crianças presas em corpos debilitados ou mentes vazias pelo Alzheimer. Toquei em sua pele flácida e já gasta pelo tempo. Tive um misto de raiva, amor e impotência.
 

Um dos senhores que encontrei já não fala mais, nem anda. Fica tentando se comunicar, emitindo grunhidos e palavras sem sentido, fora da ordem normal de um pensamento. Há dois anos, sua vida era completamente outra. Extremamente ativo, trabalhava na roça em um pequeno sítio. Após a morte da esposa, caiu em depressão profunda e foi acometido de Alzheimer. Em estágio acelerado, a doença lhe tirou tudo: a sanidade, os movimentos, a vontade de viver. Acho que nada é mais terrível do que uma pessoa perder suas lembranças. Trata-se da pura morte em vida. O que resta daquela pessoa? Nada! Nada! E ele está lá sozinho, largado. Além de não saber nem mesmo que é, é também esquecido pelos filhos e parentes. O verdadeiro mal, a maldade mais pura se aloja no esquecimento, no abandono, na solidão.
 

Senti impotência por não saber bem ao certo como ajudar, como fazer alguma coisa. Assim como esse senhor, outros tantos estão por aí, deixados para morrer como uns “ninguéns”. Vivemos nossas vidas tão imersos em nós mesmos, tão preocupados em ganhar dinheiro e ser “alguém”, que esquecemos do futuro. Todos nós, impreterivelmente, envelhecemos. Acabar como esses velhinhos, internados em asilos, tendo a solidão por irônica companhia, é um passo.
 

Só a revolta me restou quando saí daquele local, amansada pela idéia de que voluntários e algumas pessoas ainda dispõem de tempo e algum dinheiro para ajudar. Perguntei-me com imensa sinceridade o que fiz até hoje para ajudar alguém. A resposta foi NADA. E você? O que fez até agora?
 

A que ponto pode chegar a maldade humana?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Cordel

Publiquei esse texto na Revista Seven Nights em março de 2007. Clodovil e Enéas Carneiro ainda eram vivos. A exceção disso, pouco ou quase nada mudou.


Cordel
*Arnaldo F. Vieira

 


Eu já votei no lula, hoje voto mais não
Depois de tanto escândalo, depois do mensalão
me arrependi profundamente. Quanta decepção!
No ano passado, ano de eleição
muita gente até tentou mostrar a enganação.
Mas de nada adiantou e ele ganhou a reeleição.
Será que só eu é que estou maluco? Será alucinação?
Tanta evidencia de roubo, tanta corrupção,
e o Brasil escolheu o homem, que diz que tem a cara do povão.

No congresso a mesma coisa, lá tá cheio de Barão.
Elegeram até o Collor, uma vergonha pra nação.
O povo tem memória curta, falta muita informação,
se juntar todos num saco, não vale nem um tostão.
Tem o Clô votando rosa, tem o Enéias embrulhão...
E o Maluf (quem diria) participando de comissão.
Só falta ser de orçamento, por que disso ele não abre mão.
É só ver por São Paulo, quanta obra, quanta superfaturação.
Êta Congresso Brasileiro! Lá não salva nenhum não.

Fico triste quando assisto o que passa na televisão,
é gente passando fome, é pobreza de montão,
é a violência que só aumenta, causando medo na população.
O salário nunca sobe, os preços lá no altão,
e minha gente sofrida sem esperança, sem ilusão,
ainda sorri pra vida, se contentando com pouco pão.
É o martírio de uma gente que não merece desilusão,
Governantes corruptos, “tudo um bando de ladrão”,
roubam o dinheiro do povo, matam os pobres, 

nos condenam à solidão.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Um ano novo

Quando o mês de dezembro se inicia, todos nós sentimos um começo de fim. Ano está terminando e com ele as realizações que fizemos durante os últimos 11 meses. Algumas pessoas realmente não entendem essa questão, essa sensação de finitude que é tão necessária ao ser humano. Terminamos mais um ano, na iminência de outro que se iniciará.

Nesse período, o poder consumista entra em ação. O comércio se aquece, a indústria produz muito mais, as ruas estão sempre movimentadas. Tudo caminha para o grande ápice, a noite natalina, onde famílias se congraçam na troca de presentes, nas celebrações das ceias, na visita do “Papai Noel”. Uma grande festa que comemora o encerramento de mais um ciclo, o findar de mais um ano de trabalho e muita luta.

Porém na semana seguinte, o ano realmente se encerra. No dia 31 de dezembro, fogos de artifício iluminam os céus do mundo comemorando a chegada de mais um ano. E é sobre este momento singelo e às vezes único, que escrevo. Reflito sobre ele na condição de ser humano falho e imperfeito. Sei que a todo início de ano colocamos metas em nossas vidas e quase sempre essas metas não são cumpridas. Sei também que somente nesse período do ano é que valorizamos nossos laços religiosos, nossas relações afetivas, nosso envolvimento com causas sociais. E isso não é bom, pois deveríamos manter esse espírito durante todo o ano. Desta forma eu, na minha humilde condição de homem, reconheço que sou tão falível como qualquer outro, porém luto sempre para ser alguém melhor. Luto com todas as minhas forças para não cometer os mesmo erros, para fazer o bem, para ser mais humano.

Acredito que o ano novo é uma das celebrações mais importantes de todo o ano. É nele que depositamos nossas esperanças de um futuro melhor, de um tempo mais feliz para todos. É no ano novo que resgatamos um espírito que deveria nos acompanhar sempre: o de renovação. Renovação de conceitos, de idéias, de propostas, de vida. Renovar é preciso sempre. O novo trás experiências diferentes jamais sentidas. O novo recupera a vontade de acreditar em algo, em alguém. O novo estimula a criação, o poder de persuasão. Quando digo que o ano novo é importante, proponho automaticamente que juntos acreditemos nessa mudança e que igualmente juntos, a façamos acontecer. Lembro de um pensamento de um dos maiores pacifistas que a humanidade já teve, Mahatma Gandhi. Ele disse certa vez: "Você deve ser a própria mudança que deseja ver no mundo". Em sua frase ele queria dizer que somente através de nós mesmos é que as mudanças podem acontecer. Porém elas deveriam ter início em nós mesmos.

O ano de 2010 será um ano extremamente importante para toda a sociedade brasileira. O que proponho é uma mudança definitiva de paradigmas e conceitos. Proponho o fim de várias coisas que estão aí há tempos e não dão certo, não funcionam. Proponho mudanças e renovações urgentes, para o bem de todos nós.

Que venha 2010. Eu, com toda certeza, mudarei. E você?