segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Rou, rou, rou...

Esta crônica foi publicada em dezembro de 2006, também na Seven Nights e no jornal Realidade Regional, de Potirendaba. Serve bem para esta semana em que celebramos o Natal.

Rou, rou, rou...
*Arnaldo F. Vieira

Noel estava na ponta da mesa, reunido com os duendes fazedores de brinquedos. Mamãe Noel acabava de trazer uma bandeja com vários copos de chocolate quente para os presentes.
Antes de começar a falar, limpou o pigarro da garganta (“Tenho de parar com aqueles cubanos, HAM-HAM”) e se ajeitou na cadeira arrumando a enorme barriga. Encarou um a um e começou a reclamar. Precisava mudar o Natal urgentemente! Já não agüentava mais sempre as mesmas piadinhas

– “Papai Noel, o senhor rói as unhas? RÔO, RÔO, RÔO. Ou então os trocadilhos com o tamanho do meu saco. O de brinquedos, Ziplik! Duende chato... E até mesmo insinuações muito maldosas de mim com as Renas, vê se pode! O Natal é sempre a mesma coisa há séculos. Comem pra caramba, nem me convidam prum tender, um pernil... Se por acaso dou uma atrasadinha (esse trânsito ta terrível) os pais já se revoltam, falam que a gente não existe e outras coisas mais. Além disso, qual criança acredita na gente? Só eu sei quantos tufos de barba me arrancam só pra ver se é de verdade. Por isso resolvi reuni-los aqui. Precisamos de propostas diferentes para esse Natal.

Silêncio geral. Depois de alguns instantes, lá no final da mesa, ergueu a mão um duende que tinha poucos dias de serviço. Estava estagiando ainda e sua única função era escrever o que estava sendo discutido na reunião. Mamãe Noel parou de servir as xícaras de chocolate por alguns instantes. Todos se viraram pra acompanhar o olhar dela e do “bom velhinho” sentado na outra extremidade da mesa.

Timidamente, o estagiário de duende levantou e ainda com a cabeça baixa virou-se em direção à Noel:
– Bom, er... eu acho que... hum... não sei... Ah, acredito que... talvez sei lá, se fosse possível...
– Fala meu filho, desembucha que eu não tenho tempo à perder...
– E se a gente... quer dizer, o senhor... assim... se nós estabelecêssemos um plano de metas baseando nos números de nossa produção atual e à partir desses cálculos, fizéssemos uma tabulação dos resultados, onde poderíamos observar as tendências de crescimento e resultados obtidos pelo Natal passado. Assim poderíamos apontar com certeza as falhas estruturais de nossos serviços e fazer uma previsão de metas para o próximo Natal.

Espanto. Silêncio sepulcral. Papai e Mamãe Noel petrificados e boquiabertos olhavam para o jovem duende.
– Meu filho... QUEM É VOCÊ?

O estagiário foi mandado para um setor remoto da linha de produção no pólo norte. Suas idéias eram revolucionárias demais para a cabeça do velho. Revolucionárias e complicadas. O Natal naquele ano foi exatamente igual a todos os outros. Nenhuma mudança.

Moral da História: Todos temos medo do novo, medo de tomarmos atitudes inovadoras, por mais complicadas que elas possam parecer. Se simplesmente não entendemos o pensamento das pessoas, ignoramos e voltamos a nossa mesma vidinha pacata.

O fim do ano esta aí. Mudanças para 2006? Não sei. Espero sinceramente que sim.
Ainda perguntam para Papai Noel se ele rói as unhas. E ele continua respondendo: Rou, rou, rou...

Boas festas! De coração.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Esquecidos

Outro texto meu publicado na Revista Seven Nights, de Rio Preto, em 2007.
Agora, lendo e republicando aqui na Internet, pude ver como certas coisas nunca mudam. O tempo passa e a gente continua vendo certas misérias. Esse texto gerou uma polêmica danada na época. Recebi inúmeros e-mails elogiando, outros criticando, mas no final o resultado foi positivo. Semanas depois, a Prefeitura de Potirendaba, através de uma lei municipal, começou a repassar uma verba para auxiliar o Lar São Vicente. Era o mínimo a ser feito diante de tanta tristeza. Leiam:


Esquecidos
*Arnaldo F. Vieira

A que ponto pode chegar a maldade humana?


O faz uma pessoa abandonar os pais à própria sorte, em um asilo, definhando e morrendo lentamente com o passar dos dias, meses e anos?
 

Meu pensamento está fixo nessas duas perguntas nos últimos dias. Comecei 2007 tentando encontrar alguma explicação plausível para a crueldade que certas pessoas cometem para com seus parentes. Visitei à poucos dias o Lar São Vicente de Paula, em Potirendaba. Lá, não encontrei pessoas, mas sim verdadeiros “pedaços de carne”. Por mais que os mantenedores da instituição lutem para conseguir recursos, batalhem e tenham auxilio financeiro da prefeitura e doações, nada supre o olhar vazio e sem vida dos 23 idosos que lá são atendidos.
 

E o pior: se fosse só lá que o esquecimento e a falta de humanidade estivessem presentes, eu estaria quieto. Só na região são mais de 20 instituições que cuidam de velhinhos abandonados, pessoas que quando jovens criaram filhos e até netos e hoje, se encontram largados, aguardando a morte em algum quarto de asilo. Conversando com o diretor do Lar São Vicente lá de Potirendaba, descobri que além de doentes, muitos dos idosos apresentam deficiências físicas que impedem a locomoção, o banho, etc. As enfermeiras e voluntárias que lá trabalham fazem o necessário para manter a saúde e bem estar dos idosos, mas nada consegue aplacar a solidão e o abandono que os familiares infligem aos seus parentes mais velhos.
 

Olhei aquelas pessoas, muitas delas verdadeiras crianças presas em corpos debilitados ou mentes vazias pelo Alzheimer. Toquei em sua pele flácida e já gasta pelo tempo. Tive um misto de raiva, amor e impotência.
 

Um dos senhores que encontrei já não fala mais, nem anda. Fica tentando se comunicar, emitindo grunhidos e palavras sem sentido, fora da ordem normal de um pensamento. Há dois anos, sua vida era completamente outra. Extremamente ativo, trabalhava na roça em um pequeno sítio. Após a morte da esposa, caiu em depressão profunda e foi acometido de Alzheimer. Em estágio acelerado, a doença lhe tirou tudo: a sanidade, os movimentos, a vontade de viver. Acho que nada é mais terrível do que uma pessoa perder suas lembranças. Trata-se da pura morte em vida. O que resta daquela pessoa? Nada! Nada! E ele está lá sozinho, largado. Além de não saber nem mesmo que é, é também esquecido pelos filhos e parentes. O verdadeiro mal, a maldade mais pura se aloja no esquecimento, no abandono, na solidão.
 

Senti impotência por não saber bem ao certo como ajudar, como fazer alguma coisa. Assim como esse senhor, outros tantos estão por aí, deixados para morrer como uns “ninguéns”. Vivemos nossas vidas tão imersos em nós mesmos, tão preocupados em ganhar dinheiro e ser “alguém”, que esquecemos do futuro. Todos nós, impreterivelmente, envelhecemos. Acabar como esses velhinhos, internados em asilos, tendo a solidão por irônica companhia, é um passo.
 

Só a revolta me restou quando saí daquele local, amansada pela idéia de que voluntários e algumas pessoas ainda dispõem de tempo e algum dinheiro para ajudar. Perguntei-me com imensa sinceridade o que fiz até hoje para ajudar alguém. A resposta foi NADA. E você? O que fez até agora?
 

A que ponto pode chegar a maldade humana?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Cordel

Publiquei esse texto na Revista Seven Nights em março de 2007. Clodovil e Enéas Carneiro ainda eram vivos. A exceção disso, pouco ou quase nada mudou.


Cordel
*Arnaldo F. Vieira

 


Eu já votei no lula, hoje voto mais não
Depois de tanto escândalo, depois do mensalão
me arrependi profundamente. Quanta decepção!
No ano passado, ano de eleição
muita gente até tentou mostrar a enganação.
Mas de nada adiantou e ele ganhou a reeleição.
Será que só eu é que estou maluco? Será alucinação?
Tanta evidencia de roubo, tanta corrupção,
e o Brasil escolheu o homem, que diz que tem a cara do povão.

No congresso a mesma coisa, lá tá cheio de Barão.
Elegeram até o Collor, uma vergonha pra nação.
O povo tem memória curta, falta muita informação,
se juntar todos num saco, não vale nem um tostão.
Tem o Clô votando rosa, tem o Enéias embrulhão...
E o Maluf (quem diria) participando de comissão.
Só falta ser de orçamento, por que disso ele não abre mão.
É só ver por São Paulo, quanta obra, quanta superfaturação.
Êta Congresso Brasileiro! Lá não salva nenhum não.

Fico triste quando assisto o que passa na televisão,
é gente passando fome, é pobreza de montão,
é a violência que só aumenta, causando medo na população.
O salário nunca sobe, os preços lá no altão,
e minha gente sofrida sem esperança, sem ilusão,
ainda sorri pra vida, se contentando com pouco pão.
É o martírio de uma gente que não merece desilusão,
Governantes corruptos, “tudo um bando de ladrão”,
roubam o dinheiro do povo, matam os pobres, 

nos condenam à solidão.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Um ano novo

Quando o mês de dezembro se inicia, todos nós sentimos um começo de fim. Ano está terminando e com ele as realizações que fizemos durante os últimos 11 meses. Algumas pessoas realmente não entendem essa questão, essa sensação de finitude que é tão necessária ao ser humano. Terminamos mais um ano, na iminência de outro que se iniciará.

Nesse período, o poder consumista entra em ação. O comércio se aquece, a indústria produz muito mais, as ruas estão sempre movimentadas. Tudo caminha para o grande ápice, a noite natalina, onde famílias se congraçam na troca de presentes, nas celebrações das ceias, na visita do “Papai Noel”. Uma grande festa que comemora o encerramento de mais um ciclo, o findar de mais um ano de trabalho e muita luta.

Porém na semana seguinte, o ano realmente se encerra. No dia 31 de dezembro, fogos de artifício iluminam os céus do mundo comemorando a chegada de mais um ano. E é sobre este momento singelo e às vezes único, que escrevo. Reflito sobre ele na condição de ser humano falho e imperfeito. Sei que a todo início de ano colocamos metas em nossas vidas e quase sempre essas metas não são cumpridas. Sei também que somente nesse período do ano é que valorizamos nossos laços religiosos, nossas relações afetivas, nosso envolvimento com causas sociais. E isso não é bom, pois deveríamos manter esse espírito durante todo o ano. Desta forma eu, na minha humilde condição de homem, reconheço que sou tão falível como qualquer outro, porém luto sempre para ser alguém melhor. Luto com todas as minhas forças para não cometer os mesmo erros, para fazer o bem, para ser mais humano.

Acredito que o ano novo é uma das celebrações mais importantes de todo o ano. É nele que depositamos nossas esperanças de um futuro melhor, de um tempo mais feliz para todos. É no ano novo que resgatamos um espírito que deveria nos acompanhar sempre: o de renovação. Renovação de conceitos, de idéias, de propostas, de vida. Renovar é preciso sempre. O novo trás experiências diferentes jamais sentidas. O novo recupera a vontade de acreditar em algo, em alguém. O novo estimula a criação, o poder de persuasão. Quando digo que o ano novo é importante, proponho automaticamente que juntos acreditemos nessa mudança e que igualmente juntos, a façamos acontecer. Lembro de um pensamento de um dos maiores pacifistas que a humanidade já teve, Mahatma Gandhi. Ele disse certa vez: "Você deve ser a própria mudança que deseja ver no mundo". Em sua frase ele queria dizer que somente através de nós mesmos é que as mudanças podem acontecer. Porém elas deveriam ter início em nós mesmos.

O ano de 2010 será um ano extremamente importante para toda a sociedade brasileira. O que proponho é uma mudança definitiva de paradigmas e conceitos. Proponho o fim de várias coisas que estão aí há tempos e não dão certo, não funcionam. Proponho mudanças e renovações urgentes, para o bem de todos nós.

Que venha 2010. Eu, com toda certeza, mudarei. E você?

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O que você NÃO vai ser quando crescer?

Encontrei mais esse texto aqui da minha época de aluno.

Foi uma matéria produzida no 4.º ano de jornalismo, em 2001. A pauta tinha como objetivo falar sobre o que os jovens estavam pensando do mercado de trabalho e seus futuros profissionais. Calhou que naqueles dias, um jovem da periferia de São Paulo tinha sequestrado a filha e depois o próprio Silvio Santos, dentro de casa.

É um texto denso, que deu um trabalhão pra fazer. O resultado é esse aqui:


O que você NÃO vai ser quando crescer?
Incertezas, esperanças e sonhos de quem um dia quis ser astronauta ou professora

*Arnaldo F. Vieira

“Fernando era um menino normal, mais até do que os outros. A família proibia de namorar e a mãe quase não deixava ele (sic) sair de casa. Mesmo assim era um menino namorador. Na escola, vivia rodeado de menininhas que o achavam lindo. Ele queria era ser advogado, mas dos bons, pra poder ajudar o pessoal da igreja. Quando ele cresceu, chegou a freqüentar um cursinho pro vestibular, mas não tinha dinheiro suficiente e parou. Sabe como é, ‘cabeça vazia, oficina do Diabo’. Começou a brigar muito com a mãe, com o pai e se envolveu com drogas. O resultado foi esse crime bárbaro que ele cometeu.”

O relato de Tatiana, ex-namorada de Fernando Dutra Pinto é só um pequeno exemplo.
Assim como ele, milhares de jovens de classe baixa encontram no futuro aquilo que nunca imaginaram na infância, pois nessa idade nenhuma criança quer ser bandido, sequestrador ou coisa assim. Nas brincadeiras de rua, de mocinho e ladrão, os mais velhos são os mocinhos. Resta aos mais novos serem os ladrões ou parar de brincar. E com Fernando isso não acontecia. Filho de uma família extremamente religiosa, voltada para a Assembléia de Deus desde seu nascimento, ele nunca se imaginou brincando na rua ou sendo o ladrão. A vida o fez assim. Seqüestrador de Patrícia Abravanel e posteriormente de seu pai, o empresário e apresentador Sílvio Santos, Fernando demonstrou que os sonhos de infância e adolescência em relação ao futuro profissional podem ser tão surpreendentes quanto um final de novela.
   É difícil imaginar o mesmo Fernando advogado. É lógico que depois de tais atos de violência e de surpreendente astúcia, ele poderia ter sido mesmo advogado. Acontece que a vida não é justa. As dificuldades financeiras, o mercado exigente e a selva que se tornou o ingresso numa faculdade deixam claro que o caminho aos menos favorecidos é mesmo o mais tortuoso. Ele, nosso adorável seqüestrador, chegou a ser líder religioso da Igreja de seu bairro. Defensor das pessoas, deve ter tido em algum momento da vida a certeza da escolha certa, a advocacia. Mas a falta de dinheiro e os R$ 450,00 reais de mensalidade de um dos cursinhos mais baratos da capital paulista o fizeram seguir outros caminhos. Só na grande São Paulo, 7% dos adolescentes entre 16 e 18 anos freqüentam um curso preparatório para o vestibular. Destes, 3% ingressam numa faculdade Estadual ou Federal. Segundo dados do Instituto VUNESP, a média este ano para os cursos de Direito é de 135 candidatos por vaga. Uma verdadeira selva.
   O caso de Fernando ilustra uma realidade cada vez mais latente na sociedade. As crianças – esperança de um futuro mais seguro e confiante – hoje em dia não têm mais o desejo de ser alguém quando crescer. Mesmo por que a esperança delas está mais curta que a nossa. Antigamente, quando se perguntava aos meninos, a unanimidade era ser Astronauta. A das meninas, serem Professoras. E haviam brincadeiras sobre essas profissões. Meninas reuniam amigas para brincar de escolinha. Os moleques vestiam os capacetes de moto de seus pais e saiam pelas ruas destruindo alienígenas. Era tudo fantasia. Hoje, tal riqueza de imaginação anda escassa. Tanto meninos quanto meninas de classe média e até mesmo alguns de classe mais baixa, vivem diante de computadores, navegando na Internet ou se "divertindo" com jogos eletrônicos dos mais variados.


A psicóloga e professora Sandra Regina Chalela, têm uma opinião que resume bem a situação atual da infância brasileira. "Hoje, ser astronauta ou professora nas brincadeiras com os amiguinhos é visto até como sinal de infantilidade entre eles. As crianças acham infantilidade brincar de coisas infantis. Querem saber de computadores, videogames e por incrível que possa parecer, de sexo", afirma. Tristemente, está é uma realidade. Muitas crianças, segundo Sandra, têm a percepção do que acontece a sua volta mais rapidamente que as outras. Isso faz com que, para elas, o futuro já seja conhecido. Existe a preocupação com o futuro profissional, mas já não com o desejo se ser isto ou aquilo. Elas pensam em profissões com o intuito exclusivo de ganhar dinheiro.

Borboletinhas na cabeça - Taís tem 10 anos de idade e está na 4.ª série do Ensino Fundamental. Em sua roupa, contam-se 15 borboletinhas de plástico que servem como presilha. As cores são também das mais diversas. Seu cabelo tem mechas verdes, azuis e amarelas. A mochila tem uma foto enorme de Kurt Cobain, ex-vocalista da banda de Rock Nirvana (que cometeu suicídio em 1994). Ao perguntar a ela sobre o que quer ser quando crescer, um sorriso de deboche (uma mescla de desprezo e ironia) aparece em seu rosto:
   “E você acha que eu ainda não cresci?”, responde.
   “Acho que ainda não”, respondo eu.
   O susto maior vem agora:
   “Eu acho que serei Analista de Sistemas. Adoro computadores e pretendo fazer alguma faculdade disso”.
   A reação do interlocutor pode ser a mais variada o possível – Ela pode ter ouvido isso de alguém, ou até mesmo dos pais. Quando peço para que me leve aos pais, ela me mostra a mãe de longe. É uma das professoras de Inglês da Escola, Prof.ª Marta Ruggiero Costa. “Acho legal ela pensar assim, indica que está amadurecendo”:
   "Mas a senhora não se preocupa com a infância dela, sobre ela não brincar, se divertir como qualquer outra criança?"
   "Não. Acho que não tem nada a ver. Meninas amadurecem bem mais rápido que os meninos. Além do mais, converso muito com minha filha orientando no que ela precisar”.
   A psicóloga tem outra opinião sobre isto. "Acredito que esta mãe é tão irresponsável quanto a sociedade", afirma enfática. O fato das taxas de desemprego na sociedade moderna não diminuírem vem em sua maioria da falta de qualificação e estudo dos trabalhadores que ingressam no mercado de trabalho. Esses que ingressam, em sua maioria são adolescentes que na infância imaginaram ser astronautas, mas que só arranjam emprego de ofice-boy ou de estagiário, dependendo do grau de estudo. “O grande erro da sociedade é desprezar os desejos individuais de cada pessoa e pensar somente no lucro exagerado”. Uma pesquisa recente realizada pelo IBAM (Instituto Brasileiro de Administração Municipal) indica que 85% dos municípios brasileiros não possuem escolas informatizadas. Isso leva a crer que a maioria dos adolescentes que entra no mercado nunca viu na vida ou pelo menos nunca teve a oportunidade de estar a frente de um computador. Na mesma pesquisa, os municípios enviaram dados relativos a seus adolescentes: 25% pretendem ingressar numa faculdade; 60% não podem pagar estudos nem mesmo custear os gastos de uma instituição particular; 15% nunca pensaram estar numa faculdade. Decepcionante. “A juventude brasileira parece não querer estudar mais A impressão que se tem é de que o estudo universitário ficará exclusivo para a elite rica do país”, afirma via e-mail Álvaro Duarte, advogado e Diretor de dados do IBAM. “Somente os grandes centros possuem universidades e faculdades. Destes, a maioria dos alunos são de outras cidades e não das mesmas onde os cursos são oferecidos. Existe também a inversão de valores, ou seja, jovens ricos que estudaram em escolas particulares vão para universidades estaduais. Jovens pobres que estudaram em escolas estaduais vão para universidades particulares.”

Água e vinho - Ronaldo Fabrício na infância queria ser piloto de avião. Hoje, com 17 anos, ele pretende prestar vestibular para Engenharia da Computação na UNIRP em São José do Rio Preto. “Acho que não consigo entrar na aeronáutica. Também não tenho dinheiro para fazer um cursinho”, diz. Resolveu prestar uma faculdade particular por ser mais fácil. “Aqui, se a gente perder o R.G. em frente já está matriculado”. Trabalhando em uma padaria da zona norte de Rio Preto, todo o seu salário irá para custear a faculdade. A mãe e o pai aposentados prometem pagar o resto.  
   Marcelo Araújo Silva também tem 17 anos. Seu sonho de infância era ser médico. Estudante do Terceirão do SETA (Sistema Educacional Tristão de Athaíde), ele pretende já no final do ano prestar vestibular para medicina na USP em São Paulo e na FAMERP em Rio Preto. “Sei que minhas chances ainda são médias. Por isso parei de sair aos finais de semana para estudar mais. Quero passar direto”. O pai é empresário e a mãe possui um ateliê de pintura. Sua cota diária de estudos é de 9 horas. Desde que se conhece por gente estudou em escola particular e por duas vezes ganhou o título de “Estudante do Ano”.
   Dois casos. De um lado, a não realização de um sonho. Do outro, a plena realização de um desejo. Ronaldo e Marcelo vivem em mundos muito diferentes. O primeiro já trabalhou em 4 firmas diferentes desde os 12 anos. O segundo nunca trabalhou. Como então saber quais as possibilidades que o mercado de trabalho reserva para ambos?
   Não é de se espantar se o primeiro caso não chegar ao fim do curso superior. Neste caso, Fernando Dutra Pinto não tem culpa do que fez. Ele foi somente um joguete do destino. Tentando buscar um futuro um pouco melhor, procurou ingressar em uma faculdade e não deu certo. No final das contas, ingressou no mundo das drogas e acabou cometendo crimes bárbaros. Viu seu sonho de infância destruído pela simples falta de dinheiro. Já Marcelo, obviamente irá completar a faculdade e provavelmente montará uma clínica (e com o auxílio dos pais). Ou seja, o mercado de trabalho hoje tem que ser feito de bons profissionais, mas também deve oferecer aos jovens oportunidades para que se aperfeiçoem. Não há possibilidade de pessoas de classes mais pobres crescerem profissionalmente. 
   Numa visão mais apocalíptica do fato, os ricos é que têm mais oportunidades no mercado atual. Não que pessoas pobres não possam ter chances, mas é de se esperar que hoje em dia o desemprego atinja níveis altíssimos nas classes mais baixas. Somente os mais abastados é que ficam empregados. E em sua maioria, sejam os patrões. “Até mesmo um adolescente mais necessitado pode desistir de subir na vida diante de tantas dificuldades”, afirma a psicóloga Sandra Chalela. “Diante do inesperado, a primeira atitude do jovem é de desistir daquilo que mais queria, deixar para trás o sonho de ter uma profissão Ele passa então a perseguir o instinto de sobrevivência: arranjar um emprego para conseguir viver e talvez assim poder trabalhar naquilo que imaginava. E como na maioria das vezes não consegue, desiste simplesmente, acomodando-se em empregos que não lhe agradam, nem que um dia imaginariam. É o fim da esperança”, declara.

30 anos de serviço - Essa falta de ânimo, de esperança, gera então outras desilusões. Leonice Mirabelli, 55 anos, está para aposentar de seu emprego na Prefeitura de Mirassolândia. “Tenho 30 anos de Serviço Público. Já trabalhei em todos os setores, já fiz de tudo aqui dentro”, diz sorridente.
   “Mas e o que você imaginava que seria quando criança?”
   “Pensava que iria ser bailarina. Na adolescência quis ser aeromoça. Como não tinha dinheiro para estudar, fazer o curso, prestei concurso no serviço público e passei”.
   Hoje, depois de quase uma vida inteira dedicada à administração da cidade, o que ela conseguiu obter foi uma casa e um terreno. “Imaginava que minha vida seria diferente. Queria conhecer o mundo, viajar para vários países. Acreditava que quando ficasse velha, poderia contar para meus netos sobre os lugares que eu já havia estado. No máximo visitei as praias do Guarujá”, encerra.
   “Os sonhos são destruídos pela falta de dinheiro”, declara a psicóloga Sandra Chalela. “Na infância, temos a impressão de sermos eternos e nossas esperanças são tão reais! Na adolescência, vemos que nosso sonho profissional não depende somente de nós e sim de uma reunião de circunstâncias (dinheiro, principalmente). Quando então optamos por uma carreira profissional, esta pode ser agradável ou simplesmente ser profissional. Temos nossas ilusões arrancadas. É claro que esta definição não se aplica a pessoas de níveis mais altos da sociedade. Estes em sua maioria desconhecem o desemprego, a falta de estrutura funcional. Estudam e são preparados desde a infância para serem grandes profissionais e se não o são, a culpa é somente deles. Já as classes menos favorecidas, se um dia chegarem a ter alguma profissão, devem se contentar com algo que não têm a mínima vocação ou então somente trabalhar”, afirma.
   E o que, a longo prazo, pode gerar a falta de ilusão profissional? Profissionais incompetentes, insatisfeitos com suas escolhas, descontentes com si mesmo e com a mente bem longe da realidade. Viver hoje em dia é se aventurar em empregos sem estabilidade, atualizações constantes, entender de informática, falar outras línguas. Neste cenário, quem perde espaço são aqueles profissionais que no passado sonhavam ser astronautas e professoras. São substituídos por “moleques”, crianças que viveram a frente de computadores e nunca sequer tiveram esperança do que seriam na viva. Antigos profissionais perdem espaço para novos sem ilusão alguma.
   “Acho que se um dia, eu me esforçar bastante, posso chegar a ter algo só meu. Sei que computação é um negócio que vai dar dinheiro daqui a algum tempo, por isso, se eu terminar a faculdade, quem sabe eu não consigo ter o dinheiro do Bill Gates”, brinca o esperançoso Ronaldo. Pode-se observar quantas incertezas, quantos pensamentos duvidosos surgem na declaração simples do jovem. Isso é que é o futuro para estes garotos, uma grande incerteza. Tendo em vista que ele e a família terão de se sacrificar para pagar a faculdade, até que suas expectativas podem ser animadoras. Mas o que será que lhe reserva o futuro. Talvez, vender cachorro-quente na rua. Ou então ser o feliz proprietário de uma marca de computadores. Ninguém sabe. O que é possível afirmar é que mais um já perdeu a esperança, deixou o encanto da profissão de “quando crescer” para trás. E por pouco ainda não perdeu o sonho atual. E pensar que Bill Gates queria mesmo era ser astronauta.

*É estudante do 4.º Ano de jornalismo da UNILAGO - São José do Rio Preto
Matéria - Reportagem Investigativa -Prof.ª Danielle Naves

sábado, 28 de novembro de 2009

Yellow Submarine

Um dia eu fiz faculdade e fui aluno.

Muito antes de eu ser professor - aliás, nunca me passou pela cabela ser professor de nada - eu fui aluno. Fiz Jornalismo. O meu 1.º ano fiz na UNORP depois acabei indo para a UNILAGO, de onde nunca mais saí. Quando estava no 3.º ano do curso um verdadeiro crime aconteceu no Mar de Barents, Norte da Rússia. Um torpedo explodiu acidentalmente dentro do Submarino Nuclear Russo Kursk, de 13.900 toneladas. O acidente o fez naufragar a 108 metros no fundo do mar, carregando consigo 118 marinheiros a bordo. A média de idade dos tripulantes era de 20 anos. A exata idade que eu tinha naquele ano.

Teve início então uma dramática corrida contra o tempo, com várias tentativas de trazer à tona os tripulantes por parte do governo Russo, que inicialmente negou ajuda estrageira no resgate. As condições climáticas (tempestades com ventos de 70 km/h, ondas de até quatro metros e correntes fortes) impediram um resgate rápido. A posição em que o submarino se encontrava, a 108m de profundidade também dificultou a acoplagem de dispositivos que pudessem trazer os sobreviventes.

Só depois de vários dias as autoridades russas concordaram em aceitar ajuda oferecida por governos estrangeiros, mas aí já era tarde. Um mini-submarino da Marinha britânica, adequado para missões de resgate foi levado da Escócia para o local com uma equipe especializada de mergulhadores e outro mini-submarino foi colocado à disposição da equipe de salvamento.

A esperança de salvar os 118 marinheiros presos no fundo do mar diminuía a cada dia. Jornais russos e ocidentais acusaram as autoridades de negligenciar suas obrigações enquanto vidas humanas estavam em perigo. A falta de informações claras sobre o acidente causaram todo o tipo de versões e supostos vazamentos de notícias.

A tragédia não se restringiu aos 118 marinheiros mortos. Ela mostrou que a possibilidade de acidentes com embarcações nucleares é real e qua a Russia nada mais era que um dinossauro ideológico, com armamentos nucleares ultrapassados, resquícios da Guerra Fria andando por aí, pelos mares do mundo. O drama da tripulação do submarino comoveu a Rússia, cuja população não desgrudou da TV e do rádio em busca de informações.


Ao final da tragédia, os mergulhadores ingleses conseguiram chegar ao submarino duas semanas depois e encontraram o que já era esperado: Todos mortos. Cartas encontradas junto aos corpos dos marinheiros levam a crer que pelo menos 23 tripulantes sobreviveram a primeira explosão que atingiu a embarcação e viveram por, no máximo, 24h. Eles morreram de forma lenta, afogados ou asfixiados. A informação foi divulgada no dia 26 de outubro, um dias depois do resgate dos primeiros corpos.

Na época, essa história me chocou bastante. Não só pela equivalencia da idade dos tripulantes com a minha, mas pela forma como eles morreram: sozinhos, na escuridão do fundo mar, lentamente.

Escrevi uma crônica que foi publicada no Jornal Expressão Livre, que editávamos na faculdade. É um dos textos que mais gosto. O título também é simbólico, homenagem a música dos Beatles, uma mescla de juventude com rebeldia que infelizmente os jovens do Kursk nunca puderam, e nunca mais, poderiam curtir:



Yellow Submarine
*Arnaldo F. Vieira

Os homens estão lá, no fundo do mar, inertes. Envoltos com toda a magia, frieza e silêncio do mar Báltico. Estão lá, no seu túmulo de ferro, último lugar onde habitaram.

Suas mortes foram em vão. Foram tolas, desnecessárias. Pagaram pela modernidade do homem o preço da vida. Morreram pelo orgulho de uma nação falida, fadada ao fracasso de um regime arcaico. Deram suas vidas pela mãe Rússia e o que receberam dela em troca? O silêncio do vice-presidente quando perguntado pela mãe de um deles.

Lembro nas décadas passadas, um grupo de rock´n roll que revolucionou a música, cantar uma melodia onde diziam que todos nós morávamos num submarino russo. Um belo submarino amarelo. Hoje, moram lá no fundo do oceano, 118 homens. Que talvez nunca souberam da existência dessa música.

E morreram por causa da sede de poder do homem. Chernobil, Hiroshima, TWA, Vietnã. Frutos da tecnologia, dos sistemas de governo. Frutos de homens sádicos, de domínios econômicos. Frutos da burrice humana. Até quando vamos nos deparar com esses trágicos incidentes e perceber que a vida é muito mais simples?

Os submarinos são hoje os espelhos de décadas passadas. São a demonstração ignorante de poder bélico das grandes potências. São monstros escuros e frios que cruzam o mar num ambiente claustrofóbico, sufocante, paranóico. São túmulos que se movimentam pelas águas. São o orgulho de nações falidas; o desprezo de grandes potências.

Agora, o Kursk deixa a realidade e vai virar ninho de corais, de peixes. Até que enfim encontrou uma função condizente com a evolução atual. E pensar que a tempos atrás um tal de submarino amarelo passava pelos mares do mundo criticando as modernidades do século XX. Não teve tempo de chegar ao mar de Barents.

Precious Images

Há algum tempo atrás, achei esse vídeo no Youtube e me apaixonei por ele. Depois tiraram do ar por violar direitos autorais. Encontrei-o novamente, graças à maravilhosa indicação do meu aluno (e amigo) Alex Sansil, feliz proprietário do site onada e pude disponibilizar pra vocês. Uma pérola de edição que homenageia o cinema.

É de assistir com lágrimas nos olhos:


Precious Images from Gerardo Ratto on Vimeo.

Pois é...

Resolvi fazer um blog. Lutei por muitos anos contra essa idéia. Dou aula sobre jornalismo online, blogs, novas tecnologias, ferramentas de internet, youtube, essas tranqueiras virtuais todas, mas não tinha um Blog. Quem já foi meu aluno sabe que no 4.º ano há a nacessidade de se montar um blog e nele, excercer a criação de textos para Internet. Mas eu mesmo não possuia um. Aliás, tinha e tenho ainda, mas é algo fictício que nada tem a ver a com experiencia única de escrever sobre fatos reais na World Wide Web.

Mas eu resolvi montar um Blog.

E logo de cara minha primeira dúvida foi sobre o que escrever. Há milhares de outras pessoas escrevendo e produzindo textos tão maravilhosos por aí que me senti um babaca completo por querer também escrever pros outros. Sim, porque na Internet escrevemos pros outros e não pra nós mesmos. Aliás, tudo o que se faz na Internet tem algo de egocêntrico, algo de "vejam como eu sou bom". É só analisar as ferramentas virtuais que estão aí: Orkut - um lugar onde vc expõe fotos suas pra mostrar pros outros, adorando quando pessoas escrevem pra vc; Twitter - um espaço onde se escreve o mínimo pra dizer "what are you doing"; Youtube - O nome já traduz, "You" (você)+ "Tube" (alusão ao tubo catódico que gera as imagens da televisão). Ou seja, a internet é uma grande rua, com vitrines de lojas onde todos querem "se" vender.

E mesmo tendo essa opinião ranzinza, porque montei um Blog?

Era muito mais fácil eu ficar sossegado, tranquilo, só lendo o que os outros escrevem por aí. É muito mais cômodo, é muito mais simples. Porém percebi que tinha muito texto parado, criado para um dia publicar em algum lugar - todo jornalista tem como sonho maior publicar seus pensamentos em livros - e eu notei que a Internet pode ser esse lugar. Não que eu tenha capacidade e competência pra isso, mas imaginei ser legal ter um espaço onde eu pudesse exercitar o meu próprio texto antes de procurar uma editora ou algo que o valha. É como um cara que vai na academia. Lá ele procura exercitar seus músculos. Pra mim, a Internet serve hoje como uma academia, onde eu posso exercitar o meu já combalido cérebro.

Tenho muita coisa escrita e guardada em algum lugar. Cartas que eu nunca mandei, contos que eu nunca li novamente, poeminhas de adolescência - quando a gente imaginava que a vida seria perfeita e que quando eu tivesse 30 anos estaria com casa própria, carro do ano, filho(s) e com um casamento feliz (pfiu!). Penso que estava na hora de dar um fim nisso tudo. Guardar na Internet não ocupa espaço e aqui em casa a coisa já está juntando traças.

Não vou me preocupar com a norma culta. Às favas com a norma culta. Se o presidente fala os impropérios que fala, vou eu me preocupar com acentuação correta e boa pontuação? Vou escrever o que me der na telha, o que eu estiver à fim de escrever e não espero que as pessoas (corajosas que forem) gostem disso aqui. Somente quero escrever. Falar pras pessoas o que eu gostaria, desentalar algumas opiniões que tenho há anos, palpitar sobre coisas legais que eu vejo nas ruas, contar da vida, dos amores, das amizades (poucas), falar do passado (sou saudosista por demais) e tentar vislumbrar o futuro. Quem tiver curiosidade de entrar aqui e ler, será bem vindo.

Vou publicar artigos meus que já saíram em revistas, vou postar vídeos que eu acho legais, músicas que acho importantes, coisas e mais coisas. Quando comprar uma webcam posso pensar em montar um videocast, mas isso é audacioso demais.

Não pretendo nada além de escrever, pensar e compartilhar. Vou exercer meu lado "egocêntrico" na Internet. E quem quiser acessar, é pela própria conta e risco.

Espero que gostem. Eu pelo menos vou.